As Cantatrizes
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010Quando eu tinha uns 15 anos, li Furacão Elis. Engraçado: eu não conhecia a música desta cantora-mãe brasileira – me deu na telha, li a biografia. E conhecer, de um só golpe, vida e obra de Elis Regina… Isso teve um resultado tão incrível e intenso na minha formação de cantora que nunca parei de me (re)formar.
Foi por causa de Elis, sua versatilidade, sua intenção, sua articulação, sua força, sua intensidade, que acendeu-se uma luz na minha alma e no meu gogó: uma cantora, pra ser de verdade, tinha que atuar. Eu tinha que atuar.
Esta descoberta enorme guiou meus gostos na adolescência – e amei menos vozes perfeitinhas e mais vozes roucas e interpretações poderosas. Mais Maria Bethânia, menos Gal, mais Marisa Monte lá no primeiro disco - com seus grunhidos, falas e miados, - e mais ainda Cássia Eller. Para além das linhas brazucas, Billie Holiday, Ella, Edith Piaf (que me fazia chorar sem entender uma palavra), Judy Garland (Cantatrizíssima), Liza Minelli (filha de peixa, peixona é), e ainda, Amy Winehouse, Norah Jones (tímida-charmosa), Camille (que tem voz cristalina – mas berra).
E então, com tantas influências me inspirando cores e texturas, pouco a pouco eu soube: pra atuar e cantar, eu precisava de uma direção. Meu primeiro diretor foi o Pedro Altman: o primeiro roteiro que escrevemos gastou apenas vinte minutos do nosso tempo, e o show melhorou pra sempre.
O que faz diferença é indiscutível. Não tinha jeito! Quando saiu Feriado Pessoal, meu desejo de atuar andou no pino. Com o CD em mãos, pensei: Quem vou chamar pra mandar em mim desta vez???
Então me lembrei de uma certa figura, interessantíssima, que conheci após fazer um show piano-e-voz. Uma professora e diretora de teatro, que me assistiu e disse coisas impressionantes (e comoventes) sobre minha atuação. Impressionou-se e me impressionou. Cris Ferri. Não tinha mais falado com ela. Mas arrumei o número, deixei recado:
- Cris, aqui é Bruna Caram e estou ligando porque penso em te chamar pra dirigir meu novo show!
E, surpresa!!! Esta Cris havia assistido, quando moça, à direção de nada mais nada menos que: o Falso Brilhante!!! O mais importante espetáculo da carreira de Elis Regina!!! Ela tinha tido a oportunidade de ver e apanhar cada grão da direção da Miriam Muniz, a superdiretora – e, nada mais nada menos que… sua prima. De quem ela herdara a escola de teatro.
Esta era a maravilhosa maluca que logo topava me dirigir - e era ela na sala da minha casa, animadíssima, puxando os cabelos e gritando:
- Nós temos que começar ontem!!!!! De hoje até o dia do show, TODOS os dias nós vamos trabalhar o Feriado Pessoal!!!!!
Foram os três árduos meses que pedi a Deus. Minha sinhazinha cantora agradecia-engrandecia.
Fiz interpretação, teatro, dança, canto, ensaio, rolei no chão, chorei, cantei três horas seguidas a mesma música, pedi água com açúcar, gritei, criei, fiz roteiro, figurino, cenário, tudo o que tive direito de tentar para encontrar aquela cantatriz que queria rodar a baiana e devorar o ao-redor.
E reformulei o que é cantar: cantar é atuar é dançar é enfeitar é sujar e é ser. O show é um filme pra gente assistir.
E a cada novo Feriado que apresento, e a cada lasca de experiência que ganho, mais ainda me alegro. Pela honra! Pelo alívio! Pelo prazer! De ser aprendiz – de cantatriz - e mais ainda, de cantartista.

