
A paixão que continua - e eu, que disparo. Não sei aonde ir com ela. A paixão que continua, rara – que não cresce e pára, como as outras, como é de costume. Esta, cresce e sara, tece os ramos da sua trama mansa, avança. Não tem fama, só tem alma e cama: efeito. A paixão que continua no seu caminhar perfeito, semeando o tempo à frente. A paixão que é diferente, não rareia, segue: muda, aguda - e, dúvida? Não tem, nenhuma! - É mais lúcida que eu.
…Eu, que sempre amei paixões fogo-de-palha, com seus mimos e navalhas, eu que amei paixões-relâmpago e todas as suas tralhas…
E entornada vem, do nada, uma paixão que espalha paz, pois é: paixão que vem dizendo Tanto faz - que continua - nos tornando mais reais. E eu lá sei que fazer dela??? Quem a trouxe assim, sem sela, sem ciúme ou crime, sem carne ou corrente? A bandida só me espera, quente. Crente.
Quem diria!, tão mais fácil me seria desgastá-la, dispersá-la, estrupiá-la até o último centavo, esfarelá-la, devorar cada migalha! Mas… pra quê? A paixão que continua veio: e brilha - nunca quis batalha e rua: a paixão se maravilha. Não promete, não compete, não confete e serpentina – a paixão que não termina, atua; essa paixão, que é sua. Que ressoa, sua, ferve, serve, canta, se ensinua – e o que essa danada dura??? Ê, paixão que continua!, ê, duradoura! Que fazer com esta fita sem tesoura???
É a paixão que continua vindo, e agora é tão bem-vinda! A surpresa é: eu me viro!!! Giro perto dela, vejo-a linda, abro a janela, com ela respiro. Me admiro de como ela não recua. O seu nome é este: Ainda. A paixão que é boa, cura, ecoa, crua, rodopia, vê, flutua: e voa, voa, voa, nua.
(Quadro de Henry Matisse.)