Arquivos de setembro de 2009
Cuidado
quarta-feira, 23 de setembro de 2009“Assim te amo. Sabendo.
Degelo prendendo as águas.”
Hilda Hilst, Cantares
Te amo pra cuidar de mim.
Eu que já cambaleei…
Semeei pedras, chorei chuvas,
Enxuguei os olhos nas costas das mãos sujas de areia.
Te amo pra cuidar de mim:
Pra escapulir do breu dos amores versáteis,
Das paixões inverossímeis,
Dos pedaços, das vitrines, dos receios, dos rumores,
Dos quase-que-quase-que-quase casais…
De resto,
Te amo pra que cuides de mim.
Confesso: penso que mereço.
Rio e desteço os meus desgastados ais
Nó a nó
Até o pó –
Que eu atiro, livre, do último andar.
Deixa ser -
Vê como é que eu cuido de me entregar.
Porque eu te amo, mesmo,
pra fazer melhor.
Aperto tua mão na minha
Pra dizer do meu orgulho:
- Escolhi bem, não um qualquer!
Foi minha sede de natal
Quem pressentiu o seu presente mudo;
Delicado embrulho,
Broche mágico, discreto, público, infinito, cais:
Sua presença de passagem…
Clara e cristalina veio
Uma razão-migalha
Pra se ser amado assim
À toa, à beça, à vera e por demais:
O teu cuidado:
A minha paz.
Bem-vinda
sexta-feira, 18 de setembro de 2009À Nelita,
Fã de Manuca Banduca
Natalia amiga
Natalia boa
Natalia sempre de bom humor.
Natalia branda que chegou de Roma se esparramou na cama e disse:
- Quem quiser que venha ter comigo!!!
E quem é que não foi?
Natalia morena ao contrário, no inverno
Ainda zonza do maledetto fuso-horário
Exímia parceira cumparsa velha de guerra
De quem me lembrei toda vez mas toda vez mesmo
que tomei água de coco comi banana com aveia e tomei sol.
Natalia Brazuca que não deixa dúvida:
É bela é bunduda e é boa de bola!!!
Natalia minha dupla de escola:
Companheira de lápis
De copo
E de cola!
Natalia poliglota
Fala ou gesticula italiano portunhol inglês português e a pior de todas: brasileiro!
Porém, puro vício:
Comigo, fala é bobagem!
Tristeza saudosa do papo-furado…
A gente se cura com uma volta dessas!
Sua Vila Madaloca, ó, se enfeita à beça:
Fuxicos e chitas e artistas empresta
Pra enfim recebê-la
De braços abertos
Servindo seu chope
E rindo, bonachona:
Entra, Natilha!!!
Você não precisa pedir licença!
Lascas
domingo, 13 de setembro de 2009
Quem eu queria enganar quem hein quem é que eu ia enganar
A velha gana de cantar de galo sem saber que é cedo é sábado ah lá fui eu sair exclamando expondo espalhando Sarei Sarei Sarei
Saí assim assoviando certa de que me esquecera
De você
De mim
E enfim saquei que o salto era superior ao alcance das pernas
Singular baderna e em suma uma certeza
Não há lágrima veja não há lágrima que seja a última
E esta prateada e limpa mancha a máscara que mostrava uma rainha
Oh máscara minha cá estou eu só eu só assim sozinha e esta cor a dor vê transmitida
Tímida tatuada transparente linha a linha
Doida diluída despida eita dor doída
Afasto o resto e me afundo no banco da platéia
Choro em paz sem público sem palmas sem poesia e sem palpites pelo amor dos céus sem vossa compaixão de panos quentes sem presentes
Que é pra que não saibam que há pedaços seus partidos espalhados por aqui ainda
Partes tão pequenas mas não tão amenas quanto eu previra
E que meu peito não vai lá tão perto de pulsar aberto e livre como eu lhes dizia
Todavia
Um outro dia
Um outro dia ou mês ou outra vez a tal da vez talvez
Tomara venha estar presente o mar
Qualquer lugar onde me mergulhar sem par
Só aquele novo aquele a se encontrar
Mais leve
Nada breve
Muito em breve
E se puder ser hoje que ele chega
Serve
Poema de Criado-mudo
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Marcelo
Meu amor
Meu amigo
Meu homem
Meu manto
Meu mano
Meu músico
Meu
Meu menino
Meu mundo
Meu hino
Meu mar
Meu marido
Meu máximo e mínimo:
Minha melhor manhã.
Marcelo
Meu muito, meu mimo
Meu meio, minha mina,
Minha alma madrinha,
Meu quem, meu quinhão,
Meu macho, meu ninho
Minha lã, minha linha,
Meu mais, meu amante,
Meu mel, meu amém.
Marcelo
Minha lenha
Meu mal, meu caminho,
Marcelo
Marcelo
Meu bem…
Benção
sexta-feira, 4 de setembro de 2009“Perguntas-me se não estou cansada.
Sim, estou cansada,
mas gosto da sensação.”
Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo
Ele me beijou
Devagar
De levinho
Até puro
Até pouco…
Dali a pouco
As mãos vagarosas
Brincaram
Meus cabelos, a nuca
Os cabelos a nuca
O pescoço as bochechas
As costas
Que mãos perigosas!
Ah que ele se enrosca…
Meu Deus!, a resposta:
Quantas mãos ele tem?
Deus ri desta aposta:
- Não vê que são duas?
Sorrio, ele gosta.
Minhas pernas nuas
Vão despindo as suas
Num golpe febril.
Que santo talento!
O corpo é atento…
Catorze de abril.
As pernas são quatro.
Calores, são mil.





