Arquivos de abril de 2009

No mundo da lua - Pendure sua Clave de Sol

quinta-feira, 30 de abril de 2009

                Não é culpa minha, é apenas uma questão genética: na maior parte da minha família, seja a paterna, seja a materna, existe um traço comum: somos avoados. Esquecidinhos. E desastradaaaços.

                No último natal, lembro da minha avó na cozinha contando os copos e falando, sozinha:

                - Ué, comprei seis copos novos, e agora… Calma. O Ize quebrou um. A Lucila, outro. Teve um que quebraram na sala, né? Hum… É! Quebraram seis! Eu tinha comprado seis! Pelo menos não fiquei no zero a zero…

 

                Pois é, e desde a infância, tive alguns típicos “sofrimentos”: meus pais esqueciam de me buscar (eu e meu irmão) na escola, compravam pipoca fiado do pipoqueiro da frente e se esqueciam de pagar, perdiam chaves, documentos, endereços, tudo o que era possível ser perdido, e a gente, por DNA ou por simples costume, cresceu… ambos iguaizinhos, ou mais perdidos ainda que os nossos pais.

                Por exemplo: essa semana, após ver a Giana e a Elba Ramalho no Tom Jazz, me despedi de todos e, ao chegar à porta, surpresa: tinha perdido a comanda. Oh. Lábia vai, lábia vem, artista da casa é confiável, paguei honestamente minha água e liberaram minha passagem. Só pegar o carro agora! Ah… Perdi o papel do estacionamento! Ôxe. Lábia vai, lábia vem, tudo certo, pague aqui que traremos o carro. OK! Fui ver e… Esqueci o talão de cheques!!! Reviro a bolsa, cena patética: nada. Desço ao camarim de dedos cruzados pra algum salvador estar lá, e se preciso estava decidida a pedir até à simpaticíssima Elba um pequeno empréstimo de quinze reais… Mas meu fiel amigo Vinicius Calderoni me livrou a cara! Quinze reais que valem ouro! Salva pela boa companhia.

 

                Bom, quando me apaixono, então, não se fala. Como a situação fica desastrosa!!! Já aconteceu de eu tomar um ônibus, apertar o botão pra descer, me posicionar na porta, e aí… esquecer de descer!!! Exato. Já aconteceu várias vezes de eu pegar o carro pra ir pra algum lugar, e ir pra outro, completamente diferente, sem me dar conta… Ou essa, histórica: uma vez, após fazer show e atender o público, cheguei ao camarim pra pegar as últimas coisas e notei que estava segurando um papel… Que será? Abri.

                “Fulana, Beijos, com carinho, Bruna Caram”.

                Que capacidade! Tinha dado o autógrafo e levado embora! Desci rindo, claro, devolvi o papel rindo mais ainda e me desculpando demais.

 

                Felizmente encontrei uma área de trabalho em que, acreditem, a maioria é distraída assim! Bando de malucos no mesmo barco, e se o meu caso é exagerado, destoa um pouquinho só! Os artistas próximos, pra mim,  são não só companhias queridas, mas… muito compreensivas! E próximas!

                Isso tudo me lembra de uma conversa que tive com o Dani Black há tempos, em que eu contava esse tipo de confusão, e, ao fim, ele me perguntou, sensato:

                - Bruna Caram, me diga: se você não fosse artista, sério mesmo, você seria o quê?

                E a resposta veio inevitável na ponta da língua:

                - Ah, uma puta de uma idiota!..

               

Sina

domingo, 26 de abril de 2009

“O que meus olhos não estão vendo hoje,

Pode ser o que eu vou ter de sofrer no dia de depois-d’amanhã”.

J G Rosa

 

                Pobre Lola. Nem agora vai sarar, nem nunca. 2h45. Olha para o teto enquanto prepara o indispensável lanche-da-madrugada e pensa, fissuradamente, no seu amor.

                Tão novo ele, tão novinho em folha que dá medo de puxa-lo pelo fio do pensamento – e se ele quebrar?

                É que é feito de papel de seda o amor mal-começado. E este dela, então, de tão brando, tão nobre, era mais frágil. Pior: tinha em si, desde dentro, uma seiva de enrascada.

                A enrascada era a óbvia: o homem tinha seu nó em outra dona, ah, Lola, outra, não é você não.

                Ora, mas Lola não queria roubar lápis de cor de ninguém; se não tinha as cores mais queridas, ficaria branca e preta, na sombra. Sem água fresca. Preferia assim, melhor.

                …Como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário!..

                Não preferia nada disso, queria o amor pra si!, evidentemente, preferia atar seu nó - e já. Só que: queria preferir o oposto. “Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que deveria querer outra coisa”, escrevera Adriana Falcão, e escreveu Lola, imaginada, a frase no teto da parede da cozinha. Melhor frear agora, senão daqui a um nada vou pisar fundo, pensou ela dando um gole de leite e queimando o céu da boca, era Deus dizendo “Dobre a língua”, punindo o pensamento de alvoroço - Deus queria só ele ser o dono das confusões do mundo, e Lola teimava em criar barcas furadas sozinha.

                Está tudo errado!!! Isto digo eu, a narradora, porque Lola, coitada!, seja por uma vocação primordial para viver de se queimar, seja por idiotice mesmo, caía num amor avesso atrás do outro, tudo fluía pro errado, todo verão entornava em inverno, todos os amores já tomados, distraídos ou molengas demais. Amor frouxo não dá pro gasto. Assim, sobravam só os impossíveis. E a paixão que pisa na cabeça da dificuldade é sempre grandiosa. Eis: Lola amava isso.

                Ah, mas já tinha se machucado demais. Quando, quando, q u a n d o  ia parar quieta? Quando ia amar cor-de-rosa, sem choque? Sem medo? Sem roxo? Esse tom do maltratar-se sem freio tinha de cessar, se não, como seria feliz? Justo ela que queria ser feliz de morrer, e até já era, muito, por cima de cada confusão.

                Era isso o que encantava os homens por ela? Não sabia. Lola olhava o relógio: 3h33, mau horário para se pensar qualquer coisa imensa. Dizem que se pode fazer um pedido quando horas e minutos estão iguais. Lá vai. Com uma fé de em estrela-cadente, Lola disse em voz alta, Quero ser feliz,

retirou-se, dormiu, e sonhou com muitos erros pecados uns atrás dos outros percorrendo-a por dentro em espiral, com tons de cores suaves, queridas, pintadas com giz de cera.

ZoNzEiRaS

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Pós-show da Giana Viscardi no Tom Jazz

 

Fatal ressaca.

- A que horas você chegou ontem da balada?

- Cheguei hoje, de manhã!

Eu por dentro sou zonzeiras tantas…

Tantas marcas de cachaça diferentes.

 

Memórias grosseiras da noite sem beira

Rodeiam meu dia.

Diálogos risos besteiras canções

- Beijos? Inclusive?

Sei bem das palavras.

De resto, outros nós.

Pois bem: falei bem,

discuti pelas mesas do bar:

Religião, com o Michi;

Inveja, com o Chico César;

Direção, com o Pedro Altman;

Viajens, com o Dani Black;

Arranjo, com o Caê Rolfsen;

Interpretação, com uma pessoa de quem não lembro o nome e pelo visto jamais lembrarei.

 

Eram 2h45 quando o Caê combinou que às 3 partiria sua preciosa carona

E 8h35 quando cheguei em casa, torta.

 

Tinha uma música que dizia “tortos corpos”!

Ou seriam copos?

Deixo o copo em paz.

Matei duas aulas nesse dia frio

E mataria mais.

 

Cantei? Ou não cantei na mesa, no bar?

Uma música linda se repete por dentro

E lembro de coração.

Loucos e bêbados deram suas preciosas palmas

E a cantora bêbada,

Agradeceu.

 

As coisas que foram ditas,

e foram feitas,

Foram elas puras?

Ou equivocadas?

Verdades secretas?

Ou desejos-de-hora?

Exagero? Verdade?

- Que importa?

 

Importa, essencialmente, que falamos bonito.

Bonito, e com requinte!

 

A ontem, um brinde!

 

 

 

 

 

O Recente

sábado, 18 de abril de 2009

“Ela lhe perguntou, num daqueles dias, se era verdade, como diziam as canções,

que o amor tudo podia.

- É verdade, respondeu ele.

Mas será melhor se não acreditares.”

Garcia Márquez, Do Amor e Outros Demônios

HPIM0532.jpg

O mocinho dorme belo ao meu lado. Acordo num supetão, não sei que dia é - quando onde como por quê? Sei nada, coisa-nenhuma ao acordar (que é diferente de despertar!) Mas uma tristeza que não era minha, subitamente é. E agora?. Lembro pouco a noite anterior, a memória é torta é turva, mas olho pra boca de sonho do meu homem e já tenho um saber único matinal: ele não é meu, só está.

Desfaço o abraço, o meu mocinho é Vicente, às poucas vezes ainda desconhecido. Mas agora estou triste com ele e me viro pro outro lado, pensando que isto é jeito de dizer Estou triste. Por que mesmo? Ele só está. - Ah, era isso. Ahn? Ah, sim, é que agora ele veio e me abraçou, às costas.

É nisso que os homens são tão diferentes das mulheres: imagine se isto seriam horas de discutir, Você está triste?, quer conversar? Não, não quero papo!!! Nem nasci esbanjando paciência, querida, silêncio. É. A mão masculina direita já desliza pela minha coxa esquerda, com leveza, justo a coxa, justo a leveza, assim não é justo! Ele sabe demais, até dormindo, o desgraçado. E, não sei se é a instiga às minhas pernas nuas ou se é simplesmente o fato de que já acordei esperta já, mas o fato é que me vêm boas memórias confundidas de ontem: conversamos coisas, que eu queria faz tempo, pra entender. Ufa. E afinal de contas, este é Vicente!, o homem que eu conheço, sem confusão nenhuma, é ele um, às vezes até somando comigo dá um só, mas isto são outras sacanagens, Ei!!! Este Vicente é meu sim, senhor, Deus, você que está aí rindo que nem tonto desde que cheguei bêbada. Este Vicente é meu amigo, para Vossa informação, e, como isto fosse pouco, ainda me abraça dormindo, me sorri, me acende, me beija, me brinca, compartilha sua arte comigo, e não me cobra uma justificativa por isso, não me pesa, não me exige, e não usa máscara - ainda bem porque eu gosto tanto da cara dele. Eu canto é pra ele e também é grátis.

O sono vem voltando de e com graça, Vicente põe os dois braços em volta de mim. É porque ele é meu amigo que eu, natural fugitiva, nem pesco risco de fugir dele tão cedo. (Mesmo sendo quase meio-dia).

O pé atrás? Desisti. Sono dá um cansaço… Eu tiro meu pé-atrás, é ele que não está me deixando dormir! Tá bom, também tem essa sede do caralho, mas. Quito o pé-atrás, está resolvido, ele que está pesando na relação que mal se inaugurou e nem sabe se vai! Tenho o mesmo medinho babaca que todo mundo tem de se apaixonar. Só que, em mim, cansa, ah este mocinho é aquele que eu conheço muito!, conheço, pra ele eu posso até dizer um dia Cansei dos teus beijos, (“já tá combinado”), e conversar com ele de tudo, tudo, qualquer coisa, é ou não é?, eu o conheço - alívios. Pronto posso dizer Olha, Vicente, eu estou me apaixonando por você, mas não se aporrinhe com isso não, deixe comigo, a gente andou trupicando porque meu pé atrás, sabe como é, a guerra do quem se apaixona primeiro, mas que diferença faz, primeiro, segundo, sim, não, olha, vai ser um prazer, eu me deixar levar, é leveza maior, graças a Deus, (quando ele acerta é foda, sabe), vou rir mais, tudo mais, às vezes vou até chorar no meio da noite, mas quietinha, é uma técnica minha de sutilezas, você ainda não chegou a ela, mas, enfim, nem se aporrinhe, é disso tudo que eu gosto, sabe? Vicente, vamos dormir agora e só depois a gente vê? Já tá dormindo, ôxe, homem é o bicho perfeito…


Diálogos Pascais

terça-feira, 14 de abril de 2009

 

Trago sempre na bolsa um caderninho amarelo-florido, que traz, como recheio, frases, idéias, compromissos, diálogos e quatrocentas mil seqüências de música para o cd que vem ao mundo em breve (a última delas escrita hoje mesmo, terá de ser a definitiva, ui).

Pois a parte dos diálogos é a que mais me agrada: depois de séculos, lembro cada palavra de conversas bobas, espertas ou engraçadíssimas que já aconteceram e guardo-as com uma memória espantosa (memória esta que no restante da minha vida simplesmente não funciona)!

Pois é; este período de Páscoa, data religiosa que na prática não parece, com todos os seus devidos chocolates, faz qualquer cantora largar um pouco mão do gogó de ouro e ficar mais quietinha. No meu caso, quem não fala, ouve, e quem ouve, anota. Assim, o caderninho amarelo-florido voltou mais divertido do feriado!

 

João, meu primo, do alto de seus nove anos, pede:

- Mãe, posso comer cachorro-quente?

- Não, João! É Sexta-feira Santa!

- Ah, tá bom. Posso comer hambúrguer então?

- Não, João. Hoje é Sexta-feira Santa.

- Ai! E frango, posso?

- João, não pode! É Sexta-fei…

- MAS O QUE QUE É ISSO, SEXTA-FEIRA SANTA??? EU NÃO SEI O QUE QUE É SEXTA-FEIRA SANTA, MÃE!!!

 

 

4h da manhã, voltando da balada, eu e minha prima conversando sem parar como se fossem seis da tarde. Estacionamos na frente da casa da vovó e, antes de descer, me dá um estalo:

- Ju, tenho uma coisa desastrosa pra te falar.

- O quê?

- Tô sem a chave de casa e sem celular!

Ela fica olhando, boquiaberta, três segundos. E:

- Eu também, sem a chave e sem celular!!!!!

 

Segunda etapa: após chamar meu irmão na janela, rezar e conseguir ligar o celular sem bateria, conseguimos que abrissem para a gente.

Antes de irmos exaustas cada uma pro seu quarto, ela me cutuca, malandra:

- Ôu, pra comemorar vamos comer agora um ovo de chocolate inteiro???

 

 

Segunda-feira passada esta… Toca o meu celular. Melhor amigo na escuta. Papo vai, papo vem, e eu:

- Pedro, quando é que vocês vão fazer show de novo? (Ele integra a Trupe Chá de Boldo)

- Nós? Hum… O próximo é depois da Semana Santa!

- Semana Santa? E quando é isso? Não sei.

- Neu eu! Pra mim todas as semanas são Semana Puta!!!

 

Haja folha de papel…

Troféus ao Alto!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Queridos,

GANHAMOS dois prêmios do Quartas Musicais ontem!!!

E dois prêmios muito especiais!

Melhor show 2008!

E Melhor cantora 2008!

 

Aqui está o vídeo da nossa mini-apresentação ontem!

OBRIGADA pelos votos, pela presença, e pelo coro!

Sorrisos largos, beijos e bom feriado!

Desencontro

terça-feira, 7 de abril de 2009

“- Quero que você saiba que não sou eu quem está te deixando. Você já me deixou faz tempo.

- De novo com essa conversa?

- É a última vez. Vou deixar você em paz.

Paz? Quem disse pra ele que eu quero paz? Eu quero guerra.”

Paulo Leminsky, Meu Caso Inexplicável, do livro ”Gozo Fabuloso“.

 

 

 

     I. Ele

     Ela me mentiu. E foi ridículo, fácil. Porque para ela tudo se resumia ao espetáculo do seu bem-querer, exposto e direcionado; para ela era nisso que o amor consistia. Hoje eu sei: àquilo que ela chamava Amor, dou o nome de Vontade - e só.

      Fogo de palha, tempestade em copo d’água, furor.  Sei que era tudo sem profundidade, mesmo porque continuo o mesmo que antes, e ela já tentou voltar e re-partir, e, de repente, desapareceu. Minha presença para ela tem valor instável. Comigo é diferente: sigo amando-a de longe (e silenciosamente), de forma integral.

      É evidente: ela não poderia entender a integralidade do meu amor. Era em função dela que eu sempre achava tudo óbvio – os elogios, declarações, reafirmações de beleza -, porque me parecia impossível que ela não tivesse também certeza de sua desejabilidade evidente, gritante. “Você nunca me elogia, é impressionante!” ela dizia em seu olhar vermelho quente. Eu olhava-a de rabo de olho. Era o meu jeito profundo de amá-la, por dentro, afogado em confusões e memórias.

      Sinto raiva do escancaro da sua paixão passageira, e enquanto isso engulo meu próprio sentimento poupado, que é por ela, e sei que é muito mais verdadeiro embora muito menos ativo – um amor meio platônico, ainda que eu reconheça ter a chance de concretizá-lo. Eu próprio me paraliso, sei disso.

      Pedi-lhe desculpas, expliquei-me. Mas a ela não importam minhas explicações. Conheço-a, talvez menos do que eu suponha, mas sei como ela aspira a um amor pulsante, colorido, vivo e alucinado – e eu não o tenho para dar. Não o tenho; não o procuro; nem o espero. E ela,.. quer fazer arder. Ela é sede e febre, eu não. Trago a suavidade, paixão anestesiada, e é isso o que lhe provoca desprezo. Quem desdenha quer comprar, é verdade, e ela me comprou tantas vezes e cada vez gostando e se enchendo mais. Ela. Irreprimível, instantânea, derramável. E sabe que não tenho em mim algo que a isso corresponda - nem é possível que se transmute minha natureza. Já não temos o que nos oferecer. Já não temos para onde voltar.  

Mana

quinta-feira, 2 de abril de 2009

 

(Para Giana Viscardi)

 

Amizade à primeira vista:

Bati os olhos nas covinhas e fiz Oh! 

Se fosse isso só…

Mas não (outros Ohs):

Havia ainda a voz. 

Outra surpresa minha:

Era ela a adivinha

- a mãe, a madrinha -

de cada palavra

que vinha

convinha

cantava

contava

e rodopiava, de leve, no ar. 

Não me aproximar?

Que remédio tinha?!?

Ah,

Nenhum.

Tudo um    e x a g e r o!:

Tanto dom inteiro

Tudo verdadeiro

E ainda, as covinhas…