II. Ela
João me olhava felino, por canto de olho:
- Tereza!.. Se eu tivesse nascido mulher, queria que me tivessem chamado Te-rê-za!
- E ia gritar assim o “ê”?
- Eu não grito!, eu sutilmente acentuo – João lúdico vinha que vinha, desabava o corpo por cima do meu.
É a saudade a ponto de escafeder-se que tem esse sabor impossível que eu nem sei se é na língua no estômago na espinha no peito no sexo no tremelicar do cílio do olho. João pressentido já me respira à nuca antes mesmo do momento de estarmos. Enfurece uma coisa dentro de mim. João é o meu deslimite pra transbordar – de bens e de males – transbordar de tão alucinantemente ser. João é a minha fineza e a grosseria da minha incontenção.
- Tereza, de mim você gosta?
Eu gosto. João tem cabelos deliciosamente cacheáveis à mão, tem a pele morena que esquenta em segundos ao expor-se ao sol, e um ossinho exato entre o pescoço e o peito que foi feito e posicionado ali só pra eu encostar o dedo indicador, gosta de trepar na sala e vê graça no meu jeito atropelado de falar.
- Tereza você é muito doida!
- Sou doida não, só estou meio fora…
- Fala “Moço”?
- Falo…
- Tereza!
- Oi.
- Fala “Moço”, nos finzinhos de frase!, eu gosto…
- Eu falo, eu falo, pode deixar!!!
E João desabava de amores brincantes diante do minha zombaria. Experimentava meu riso. Porque João, mais que ninguém, é quem desencadeia o meu riso tão fácil… Talvez pelo prazer que este, em troca, desencadeia e desencadeava nele – eu ria ele ria eu rerria ele tresria e ríamos um morrendo do outro, e de doidice.
João conduzia doidice. Sem saber; porque, de repente, adquiria em seus modos algo tão identificável por mim, que era impossível não me deixar levar. João que me beijava calculado bem no meio da rua, os carros buzinando em provocação detrás da faixa quando o farol quase-abria - e a gente correndo de volta à calçada, ele cobiçoso do meu desconcerto alegre. João que ligava “outra vez, rapidinho!”, para contar a belezura que estava o dia com sol (ele sabia que eu adorava a espontaneidade). Mas, era o mesmo que não queria falar agora no telefone, liga depois!. João que eu amo, besta, em tudo o que ele faz pra aborrecer ou extasiar. Em tudo que ele tem de poético ao falar o qualquer. Quando ele me imita - dançando, dormindo, lendo ou pintando as unhas (e ficando puta porque nunca dá certo). Quando ele vem muito meu moço, se deita ao meu lado como se nada fosse, e me beija entre o rosto e o pescoço com lascívia tão vagarosa que me dá os arrepios. E chama, “Tereza, Tereza”…
E é com a mesma pureza que João briga comigo – pouquíssimo, mas forte, irritando-se e querendo ficar bem de bem com a urgência idêntica. João que de repente me dá uma resposta atravessada, e quando eu grito:
- Por que é que você está bravo?
Ele grita com incômodo mais vivo:
- Eu não estou bravo!!!
João: que, se na aporrinhação se incomoda assim brusco, no choro, quando nele cai, é tão mergulhoso tão lento tão denso, que não há outra coisa no mundo comparável à gravidade do seu choro para me deixar tão desmanchadamente triste. João que é feito de leveza e peso.
(Que chora escondido do mundo e de si, como não lhe fosse dado o direito a derramar a tristeza, muito menos a assumir que ela é natural. Chora como se sua alegria original não lhe perdoasse o chorar. É a única ocasião existente em que João perde a espontaneidade que me arrebata, por isso minha dor em resposta. Ele pára, senta-se (João sempre chora sentado, como para o pranto o não derrubar), põe as mãos sobre o rosto e derrama suas lágrimas num silêncio tão doente tão agudo, que não sei que coisa fazer senão me abraçar a este homem que o verte – e abraçá-lo sentada atrás dele, para garantir: não quero captar-lhe as feições do pranto, e sim amá-lo para serenar a dor. Nenhuma vez, nesses anos, pude assistir-lhe nisso e evitar soluçar igual; só que o meu choro é outro, é pra fora.)
Como agora, ao ouvi-lo distante. João de indizíveis saudades!, João das lonjuras, João engrandecido, João me aguardando. Choro a gula de voltar, já pressentindo o sabor que o retorno tem. Voltar, desmesurada, jorrando saudades – eu, a expatriada verdadeira. Alguns meses passei em viagem – esta que agora finda e que, a princípio, hesitei fazer (embora sem energia). Porque era momento de destôo entre nós, eu e o moço, e, na oportunidade importante de ir, achei mais curável a breve-longa ausência que a insistência no desgaste. A ausência, embora medrosa, dizia que era o fim do desgaste.
Mas, já vimos: curamo-nos. Reconheci-o. Curamo-nos. Ouvi-o -: Curamo-nos! Sei disso pela sua voz, João, voz brejeira, querida, escoando saudades; sei disso pelo cheiro do ar. Sei pela sua voz mal-esmagada quando chorei em reflexo ao ouvi-lo; e sei porque sem estar-lá conheço mil este João que, desde que desligamos, está em pranto, sentado, com a cara mais triste e mais linda do mundo, e que eu vou me morrer de consolar.
E também sei disso pela saudade – esta! - a ponto de escafeder-se, que tem o dilatado, impossível sabor. Um frio percorrendo quente excitado irrequieto, que é como saber-lhe as mãos já passeando-me os contornos os recheios, sem freios, sem entretantos, sem dívidas. Sem dúvidas: curamo-nos! Sei disso, porque é o meu moço: que me conduz o caminho e os vieses - ele, a direção escolhida para a minha afluência. Que vai rir da minha cara quando eu rir e quando eu teimar meu escândalo. Que vai me devolver o essencial: meu deslimite por si, e meu cansaço. João, pra eu ser-me demais. O moço que vai repetir-me sua falta em pouquices cotidianas, a cada vez que nem repetir meu nome por ali não estar, inspirando a saudade igualzinha à de agora (como eu lhe ensinei!) nessa lembrança áspera - mas já alegre de escafeder-se! E é através dela que sei fundo que o amo, amo de me desvanecer. A voz de João!, a chamar-me, bem-vinda, encantada, brilhante, meu Moço, Mocinho, melhor coisa que há! Minha entrega meu devaneio meu alívio meu vício - e minha ocasião de sentimento refeito. O colorido, o ensolarado de tudo! Exuberância! - : eu vou morrer de reamor, enfim.