Arquivos de fevereiro de 2009

Dá um alívio quando acaba!..

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

 

                Carnaval, desengano/ Deixei a tristeza em casa me esperando” Na música do Chico é assim, e na vida também. Acabou o carnaval, voltamos pra casa, pegamos as nossas paranóias que ficaram lá quietinhas, no aguardo, e voltamos à vida real! O carnaval é nosso segundo reveillon; o ano começa enfim, ufa, amém.

                No fundo da minha caixa enorme de cadernos, encontrei-os: seis caderninhos, de uma linhagem que mantenho há muitos anos, cada um com um nome mais esdrúxulo que o outro, mas todos entitulados “Os Cadernos da Bêbada”. Desde os 16 anos trago-os na bolsa em todas as festas, comemorações, bares, bota-foras e beberiques (ou, como diria a Giana Viscardi, “birinaites”). Minha fissura por escrever também vara noites, e colecionei relatos de antigos e recentes carnavais, inclusive esta exclamação, de 2003:

               

                “O carnaval é bom, mas dá um alívio quando acaba!”

 

                E este faceiro diálogo, de 2007:

                - Pedro, esse ano quando é que vai cair o carnaval?

                - Quando vai cair, não sei, só sei que no carnaval eu vou cair!!!

 

 

                Ou, com o mesmo, melhor amigo:

                - Pedro, não tô enxergando nada… tô trilhardária!

                - Tá o quê???

                - Quer dizer, trilouca! Confundi.

 

 

                Carnaval em Olinda, em letras zonzas:

                “Passou um cara vestido de Pinóquio. Fui lá com minha fantasia de palhaça, rindo, e apertei o nariz dele:

                - E aí, Pinóquio?!?

                Imediatamente, saiu de trás dele uma namorada furiosa:

                - Prazer, palhaça!!!”

 

                Ou:

                - Fulana, tenho um amigo querendo te conhecer!!!

                - (pulando atrás do bloco) Pode trazer! Pode trazer!

                - Mas você não quer saber quem é?

- Traz que eu beijo! Demorou!

                Ah, Carnaval…

 

 

                Enfim, vim brindá-los, queridos, pelo ano novo, finalmente; e a minha sensação é a mesma que tive este ano, desfilando na Avenida… Sorríamos, dançávamos e cantávamos alto, uma alegria febril! Mas de repente olhei para o meu amigo, o (grande) compositor Dani Black, e ele riu adivinhando totalmente minha expressão:

                - Não acaba nunca, né??? Não eram dez minutos?

 

                Pois acabou! Que pena! Que alivio! Que coisa! Feliz ano novo pra todos vocês!

 

 

 

 

 

Licença mesmo…

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

                Tomei seis horas de chuva na cabeça (regadas a muita cerveja e marchinhas de carnaval), por isso foi que amanheci gripada. Segunda-feira, além de ser dia oficial de trabalhar lamentando não ter outro domingo, é o dia mundial de se acordar gripado. Cá estou eu.

                No bloco do Ó do Borogodó sábado, perdi: meu chapéu gigante de palhaça; uma anteninha de inseto (emprestei); duas perucas malucas (uma de estimação, que, doida, emprestei); dois óculos coloridos (emprestei); um nariz de palhaço (caso você não tenha percebido, leitor, levei uma sacola de adereços de carnaval para emprestar, santa generosidade); uma coroa; uma varinha; minha saúde; e minha vergonha na cara. E não é que o saldo foi positivo? Sobretudo com as chuvas misturadas: de água e de confete na cabeça!

                Dureza é a doença que cresceu nos dias seguintes, deixando um gosto amargo na boca, e um peso enorme na cabeça, meu rosto quente e um calor insuportável (apesar de que, do calor, sou fã número 1). Deitei no sofá do estúdio para analisar a gravação do acordeon à noite, e não é que dormi??? Acordei num salto e, não sei se foi a sensibilidade da gripe, mas chorei muito de repente ouvindo a gravação. Qual memória longínqua o timbre do acordeon me despertou? Não sei, só sei que os músicos acharam graça, e o Gui (Ribeiro, pianista, acordeonista) ficou lisonjeado, com muita razão.

                O médico disse que em um dia, fico boa; minha mãe disse que, com Tomás de volta, já estou boa; o Fontanetti, liderando a produção do cd, disse que não tem pressa nas gravações das vozes - mas eu disse que não me aguentava de ansiedade de cantar Fim de Tarde e aí ele riu e disse que cantar eu podia cantar à vontade mas ele é que não ia gravar a voz fanha desse jeito.

                Minha garganta queima; já provei todos os sabores de chá. Não tem problema porque tudo isso foi minha compensação: este ano não vou ter carnaval. É que em plena segunda-feira de sol frevente, vou fazer show, e não estou reclamando, não, senhores!!! Todos os que não vão queimar o pé atrás do bloco estão convidadíssimos para segunda-feira 23 passar uma tarde tranqüila me ouvindo na Praça Capivari, em Campos do Jordão, às 16h, de graça. Por causa desse show (e em prol de uma voz límpida e saudável que nada tem a ver com 5 dias de doideiras calores e sassaricos) é que exagerei no pré-carnaval. É justo ou não é? O médico disse que tomar uísque e pinga esses dias, um pouquinho só, pode me fazer bem. Coitado, olha o conselho. E o Tomás então: não trouxe gérbera, trouxe foi uma garrafa de vinho de presente, espertinho. Quando eu disse “Ah que bom que você voltou!!!”, ele respondeu “Você não reparou que eu nunca fui?”. Tudo é bom. Tudo ao meu redor tem a cara do rei Momo cantando Mamãe eu Quero num dia zonzo de calor. Tudo diz “Minha filha, sare”!

 

                Hoje já é quarta-feira e acordei ouvindo música que cura, tomei banho, fiz todos os compromissos chatinhos cedo pra ter a tarde livre e bem-acompanhada; não tenho estúdio, só preciso relaxar melhor o corpo e o gogó. Amanhã gravo duas músicas, chego em casa, tomo um banho, pego meu amor pelo braço e vou ao show da Trupe Chá de Boldo, dançar como se o mundo fosse acabar hoje mesmo, sem memória da enfermidade!, com a certeza na testa piscando fosforescente de que o carnaval é a hora em que o confete cair aqui por cima, e nem gripe, nem resguardo, nem contratempo nenhum me enxuga a sede de fevereiro, olé!

 

Licença!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

  

              Hoje vim só para me justificar: hoje não vou escrever.

                Não é que me falte inspiração, pelo contrário!, ela treme por todos os cantos do meu canto – só não quero gastar.

                Pelo disco?, vocês perguntarão. Estaria eu miguelando arte pra guardar para o disco indo pro forno? Não, meus senhores!, a arte é como o amor, quanto mais se gasta, mais dobra. Tudo pode-se escrever de novo e melhor; tudo pode-se cantar de novo e melhor! Hoje não vou escrever porque, embora chova, é o dia brilhante: hoje, meu amor vai retornar!

                De onde? Da viagem, aquela enorme que estacou nosso encontro cheio de sede! Mal nos encontramos, houve esta viagem. Quanto tempo? Duas semanas e meia. Duas semanas e meia, quase três. “Ah, mas só duas semaninhas e meia? Não é nada!”. Se você é desta rasa e gélida opinião, abandone este texto, meu querido, sua falta de tato me pinica! Nunca se apaixonou, por acaso??? Que é um dia, então?, quão absurda é a demora de um mísero dia para quem espera aceso???

 

                Respiro. Hoje não posso escrever - e não é porque vou esperar! O dia é longo, é preciso tocá-lo já. H o j e  e l e  c h e g a ! Tenho que andar a pé ouvindo Los Hermanos por muitos quilômetros, passar em frente à floricultura, comprar uma gérbera, (ele sabe que é minha favorita, talvez traga outra para mim), assobiar, chegar ao Belas Artes, meu cinema favorito, lembrar que é o único ao qual a gente foi, descer pro metrô. Olhar os livros do sebo, Tomás me fez comprar Alice no País das Maravilhas da última vez, e enquanto eu folheava, me dava um mínimo beijo na nuca, Menino pare com isso! Saudades. Escolher o livro que me puxar o olhar por um cordão invisível, pechinchar, pagar baratinho, subir e atravessar a rua sem ir ao cinema. Na banca de frutas, pedir um suco de carambola, Tomás, quando veio, pediu um de manga. Saudades, saudades. Reler a carta. A carta que ele me enviou na primeira semana, com a letra mais bonita do mundo. Reler a parte em que toda estrangeira perde o sal no minuto em que minha lembrança vem à mente. Guardar o sal e a pimenta no canto do peito aceso. Saudades, saudades, saudades.

                Voltar tudo, a pé, mas sem ver o chão, sem ver nada, ninguém, e por debaixo dos óculos escuros vermelhos suspeitar que tudo anda mais vermelho que a lente, ainda mais num dia tão branco e sem graça. Ouvir por dentro do fundo colorido da minha cabeça a voz do Gil cantando a explicação: “Pela lente do amor, vejo tudo crescer/ Vejo a vida mil vezes melhor/ Pela lente do amor, até vejo você/ Numa estrela da Ursa Maior…

 

                Não sei dar estrelas, mas se soubesse, daria! Sei dar piruetas duplas, mas deixa pra lá! Um pedestre passa por mim e sorri sem beira, será que estou andando sorrindo, meu Deus? O celular toca mas não vou atender nesse minuto. Não é a hora dele ainda. E de dentro do meu novo universo, não quero desperdiçar essa febre, não porque ela acabará e sim porque é tão infinita a cada momento. Poderia ir ao estúdio, cantaria bonito se fosse, mas hoje é domingo pé de cachimbo e é dia de trabalhar nada por todo o Brasil. Domingo monstruoso e leve.

                Preciso seguir andando, e sigo com um pensamento andando à minha frente e embaçando o resto: hoje ele chega. Não posso escrever, mesmo porque não enxergo um palmo adiante, à noite o telefone vai tocar e tudo em volta vai estremecer e se contorcer em espirais vermelhos, azuis e violetas, que é a cor da saudade. Não sei se vou atender dizendo “Ah, não acredito!”, como da primeira vez em que ele me telefonou, ou “Alô”. Que importa? Vou dizer o que for, e flutuar! Aí sim, entre desligar o telefone e sair para vê-lo, é que vou reler a carta. Colocar o vestido novo, o sapato novo. Olhar para a gérbera que já pisca um olho para mim. Cantar Roberto Carlos pela casa passando reto da tv. (Desde que Tomás partiu, não posso ver novelas pois fico muito emocionada, inclusive e especialmente com o Vale a Pena Ver de Novo e seus casais). Ligar pro meu melhor amigo e dizer: “Voltou, voltou, te ligo depois, beijos!” Caminhar na rua fingindo não ir correndo. Ir conversando com Deus sem preparar o sinal-da-cruz, que é meu jeito limpo e direto de conversar.

                E: sentir o coração batendo no pescoço! É esta a sensação maluca a cada vez, deve ser meu corpo arrumando um jeito de dizer “Este é o amor da sua vida!” ou coisa que o valha - o coração pulsando por dentro do pescoço!

 

                Hoje peço licença e desculpas e venho dizer que não posso escrever; e quem quer que já tenha tido um amor ausente rebrilhando presente vai sim concordar, e sorrir!, e achar bonito, e sugerir que eu deixe de escrever muitos dias, embora todos prefiram ler em breve tudo o que aconteceu desde o minuto-agora em que bati a porta, e fui.

Poema de Boas-Vindas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

(Para meu primeiríssimo sobrinho;

porque filho de amiga é sobrinho, claro)

 

Dois de fevereiro:

Dia de Iemanjá!

E em dois mil e nove,

Sol, só três da tarde…

Faz calor e chove

Penso: “O que é que há?”

 

A segunda-feira

Arde, invade o quarto.

Eis: Papai e Mamãe

(Mais uma vez)

Esperam o fato:

Hoje chega alguém!..

 

E em cima da hora

(Na última hora!)

Ele vem ao mundo.

Vê, respira fundo.

Grita! Quer assunto!

O nome dele é Téo…

 

Tem olhos espertos

De quem quer ver muito

De quem quer ver tudo!

(Mais do que o bastante!)

“Já que o mundo é tanto,

Pra quê coisa pouca?”

Traz na boca grande

Algo que garante:

Vai cantar à toa!

Igual à mamãe…

 

Mal chorou na hora!

(A gente é que chora…)

Ele olha e ri.

O Papai, aqui,

À primeira vista

Já ama o artista

Que ele mesmo fez!

 

E agora é preciso

E é irresistível

E é inevitável

Amá-lo sem falhas

Sem breus ou migalhas

Sem prazo ou estação:

Amor sem engano

Maior que o tamanho

Da comparação.

Que vida bonita!

Até é difícil

Lembrar se era vida

Antes dele chegar…

 

Claro! Ele é o início –

Ele é a razão.

O mais, é fictício,

Suplício,

Ou senão.

 

Enfim: Téo!

Ele vai pintar o céu

Com fogos de artifício

E bolhas de sabão…

Enfim (2)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

II. Ela

 

 

           João me olhava felino, por canto de olho:

               - Tereza!.. Se eu tivesse nascido mulher, queria que me tivessem chamado Te-rê-za!

                - E ia gritar assim o “ê”?

- Eu não grito!, eu sutilmente acentuo – João lúdico vinha que vinha, desabava o corpo por cima do meu.

                É a saudade a ponto de escafeder-se que tem esse sabor impossível que eu nem sei se é na língua no estômago na espinha no peito no sexo no tremelicar do cílio do olho. João pressentido já me respira à nuca antes mesmo do momento de estarmos. Enfurece uma coisa dentro de mim. João é o meu deslimite pra transbordar – de bens e de males – transbordar de tão alucinantemente ser. João é a minha fineza e a grosseria da minha incontenção.

- Tereza, de mim você gosta?

                Eu gosto. João tem cabelos deliciosamente cacheáveis à mão, tem a pele morena que esquenta em segundos ao expor-se ao sol, e um ossinho exato entre o pescoço e o peito que foi feito e posicionado ali só pra eu encostar o dedo indicador, gosta de trepar na sala e vê graça no meu jeito atropelado de falar.

                - Tereza você é muito doida!

                - Sou doida não, só estou meio fora…

                - Fala “Moço”?

                - Falo…

                - Tereza!

                - Oi.

                - Fala “Moço”, nos finzinhos de frase!, eu gosto… 

                - Eu falo, eu falo, pode deixar!!!

                E João desabava de amores brincantes diante do minha zombaria. Experimentava meu riso. Porque João, mais que ninguém, é quem desencadeia o meu riso tão fácil… Talvez pelo prazer que este, em troca, desencadeia e desencadeava nele – eu ria ele ria eu rerria ele tresria e ríamos um morrendo do outro, e de doidice.

João conduzia doidice. Sem saber; porque, de repente, adquiria em seus modos algo tão identificável por mim, que era impossível não me deixar levar. João que me beijava calculado bem no meio da rua, os carros buzinando em provocação detrás da faixa quando o farol quase-abria - e a gente correndo de volta à calçada, ele cobiçoso do meu desconcerto alegre. João que ligava “outra vez, rapidinho!”, para contar a belezura que estava o dia com sol (ele sabia que eu adorava a espontaneidade). Mas, era o mesmo que não queria falar agora no telefone, liga depois!. João que eu amo, besta, em tudo o que ele faz pra aborrecer ou extasiar. Em tudo que ele tem de poético ao falar o qualquer. Quando ele me imita - dançando, dormindo, lendo ou pintando as unhas (e ficando puta porque nunca dá certo). Quando ele vem muito meu moço, se deita ao meu lado como se nada fosse, e me beija entre o rosto e o pescoço com lascívia tão vagarosa que me dá os arrepios. E chama, “Tereza, Tereza”…

                E é com a mesma pureza que João briga comigo – pouquíssimo, mas forte, irritando-se e querendo ficar bem de bem com a urgência idêntica. João que de repente me dá uma resposta atravessada, e quando eu grito:

                - Por que é que você está bravo?

         Ele grita com incômodo mais vivo:

                - Eu não estou bravo!!!

                João: que, se na aporrinhação se incomoda assim brusco, no choro, quando nele cai, é tão mergulhoso tão lento tão denso, que não há outra coisa no mundo comparável à gravidade do seu choro para me deixar tão desmanchadamente triste. João que é feito de leveza e peso.

                (Que chora escondido do mundo e de si, como não lhe fosse dado o direito a derramar a tristeza, muito menos a assumir que ela é natural. Chora como se sua alegria original não lhe perdoasse o chorar. É a única ocasião existente em que João perde a espontaneidade que me arrebata, por isso minha dor em resposta. Ele pára, senta-se (João sempre chora sentado, como para o pranto o não derrubar), põe as mãos sobre o rosto e derrama suas lágrimas num silêncio tão doente tão agudo, que não sei que coisa fazer senão me abraçar a este homem que o verte – e abraçá-lo sentada atrás dele, para garantir: não quero captar-lhe as feições do pranto, e sim amá-lo para serenar a dor. Nenhuma vez, nesses anos, pude assistir-lhe nisso e evitar soluçar igual; só que o meu choro é outro, é pra fora.)

                Como agora, ao ouvi-lo distante. João de indizíveis saudades!, João das lonjuras, João engrandecido, João me aguardando. Choro a gula de voltar, já pressentindo o sabor que o retorno tem. Voltar, desmesurada, jorrando saudades – eu, a expatriada verdadeira. Alguns meses passei em viagem – esta que agora finda e que, a princípio, hesitei fazer (embora sem energia). Porque era momento de destôo entre nós, eu e o moço, e, na oportunidade importante de ir, achei mais curável a breve-longa ausência que a insistência no desgaste. A ausência, embora medrosa, dizia que era o fim do desgaste.

Mas, já vimos: curamo-nos. Reconheci-o. Curamo-nos. Ouvi-o -: Curamo-nos! Sei disso pela sua voz, João, voz brejeira, querida, escoando saudades; sei disso pelo cheiro do ar. Sei pela sua voz mal-esmagada quando chorei em reflexo ao ouvi-lo; e sei porque sem estar-lá conheço mil este João que, desde que desligamos, está em pranto, sentado, com a cara mais triste e mais linda do mundo, e que eu vou me morrer de consolar.

E também sei disso pela saudade – esta! - a ponto de escafeder-se, que tem o dilatado, impossível sabor. Um frio percorrendo quente excitado irrequieto, que é como saber-lhe as mãos já passeando-me os contornos os recheios, sem freios, sem entretantos, sem dívidas. Sem dúvidas: curamo-nos! Sei disso, porque é o meu moço: que me conduz o caminho e os vieses - ele, a direção escolhida para a minha afluência. Que vai rir da minha cara quando eu rir e quando eu teimar meu escândalo. Que vai me devolver o essencial: meu deslimite por si, e meu cansaço. João, pra eu ser-me demais. O moço que vai repetir-me sua falta em pouquices cotidianas, a cada vez que nem repetir meu nome por ali não estar, inspirando a saudade igualzinha à de agora (como eu lhe ensinei!) nessa lembrança áspera - mas já alegre de escafeder-se! E é através dela que sei fundo que o amo, amo de me desvanecer. A voz de João!, a chamar-me, bem-vinda, encantada, brilhante, meu Moço, Mocinho, melhor coisa que há! Minha entrega meu devaneio meu alívio meu vício - e minha ocasião de sentimento refeito. O colorido, o ensolarado de tudo! Exuberância! - : eu vou morrer de reamor, enfim.

 

Enfim

domingo, 1 de fevereiro de 2009

             I. Ele 

                Tereza ria pelo menos três risadas disparadas, divertidas e roucas, como se cada uma viesse em atropelo da outra. Como se toda a sensação do riso não lhe coubesse, e ela própria tivesse de rir primeiro do que ria, depois, da própria risada, depois, do fato de ter se rido, e assim por diante. Tereza e sua gargalhada boa; sequer ficava mais bonita nesse esbanjar-se, mas dava súbita a vontade na gente de rir com ela. Tereza. Que gosto me dava chamá-la enfatizando esse “ê” do seu meio, Terêza!, Terêza!, e a vontade que ela mal sabia que eu mantinha de ficar repetindo seu nome observando-a dormir.

                (Por recear acordá-la, ficava assim-só lhe chamando em silêncio, redizendo-a na mente, e depois, de manhã, sentia um prazer quase estúpido ao acordá-la com beijos e aliviar na voz suave,: Terêza, Terêza, Terêza…) 

                Lembro que perguntamo-nos, um dia, como é que havíamos aparecido tão decisivamente na vida um do outro. Conversamos horas sobre nossos começos; a amizade, a confusão, o amor, os desencontros. Rimos muito, Tereza se emocionou, eu disse que a amava e ela riu inconfundível por cima do choro, limpou o canto do olho, “eu também te amo, sem-graça…”, bem do jeito que ela fazia pra contrabalançar sua grandeza: tirando sarro, sempre, da própria transbordância. Só hoje, pensando sozinho, é que enxergo que Tereza jamais apareceu na minha vida… Não há um sinal, um resquício, uma lembrança sequer que eu possua de que ela pareça alheia, que ela pareça não ter visto, ou que eu consiga admitir que ela não tenha compartilhado. Mesmo as coisa mais avulsas, mais infantis – mesmo as lembranças mais soltas mais ínfimas parecem ter sido criadas por ela: em preparação, proteção ou homenagem a ela. Tereza sempre esteve; Tereza jamais apareceu, Tereza palpitou. E eu a senti indelével, definitiva em mim – palpitando, desde o início já aqui por dentro, vibrante, pregada, indissolúvel.

                Tereza era dona de uma beleza que eu diria bruta, até assaltada – uma beleza inteiriça e tão palpável que a gente, de só olhar só, se confundia. Não se podia saber em que consistia – se havia algum traço, um detalhe, um aspecto exato onde a beleza dela residisse.  Mas o certo-visível era que sua beleza vivia a destacar-se em meio à das outras – e talvez se destacasse justamente por se confundir dentre elas. É que bastava espiá-la um fiapo de tempo a mais entre as milhares mulheres (a princípio todas parecidas ou mesmo todas bonitas), que a beleza só dela aflorava-explodia; envesgava o olho do espectador – e aí é que vinha a sensação desajeitada de incredulidade!, como não ter percebido no imediato tamanha lindeza em meio ao completo trivial? (Uma vez tendo chegado a essa sensação, nunca mais se poderia enxergá-la igual; nunca). Terêza… Você, moçoilinha, sabia que a beleza turvável era a mais valiosa. Sua não-perfeição. A beleza tocável, mais encantadora em sua realidade que em sua magnificência.

                Tereza um dia me disse, nos melhores tempos, que quiçá só se conhecesse de fato uma pessoa ao conhecer-lhe o chorar. “Mas não vale só conhecer de ter visto, viu, Moço?, tem que saber com detalhes, exatamente; tem que saber descrever!..”. Achei muita graça na época,  hoje considero-a inconteste. Até me submeteria a explorar a memória com profundeza, pra esmiuçar-lhe o chorar, se isso não tão me causasse uma dor pontiaguda… Ou se isso não precisasse me lembrar que tantas vezes Tereza já chorou por minha causa. Ah!, eis.., imprevista me vem sua imagem chorosa à lembrança; Tereza chorava forte e repentinamente. Soltava uma frase de explicação (ou desatino) e chorava por sobre ela, sonora – tão clara e tão desprovida de pudor que quase sempre tinha-se a sensação de que ela não estava chorando e sim rindo – ou que ela estava chorando de brincadeira. Tereza, não chora!.., eu já nem acentuava meu “ê”, tão paralisado me quedava diante da sua tristeza aberta pra mim. Não dava pra falar em consolo nada, porque, mesmo ali, ela parecia ser forte, bastar-se sozinha, chorava só mais um pouco soluçado e, tão de repente como começara, cessava o choro num levantar-se sem quê, limpava o rosto e sarava. Nessas horas, se isso era possível, eu a amava ainda mais, e acho que ela percebia-o, pela minha confusão. Tereza dizia, vez em quando, que eu chorava ao contrário, pra dentro, que eu chorava fingindo pra mim que fazia outra coisa… “Mocinho, você tem que descobrir que o chorar é pra fora…”. Tereza me desmascarava.

                E agora::: Tereza distante retorna. E eu distingo o gosto vasto que há no alívio maioral. Mal ouço a voz dela, já sei que a recebo infinita. “Ai Moço!, Moço hoje eu vou desmaiar de reamor…” disse-me ela, brejeira, há pouco, no telefone. Animada, inconstante, descolada de si. A beleza tocável que eu vou percorrer até me lembrar de cor. “Passou rápido, Tereza, e a saudade, você lembra?, a saudade é sempre igual…” eu disse, mal sabendo que ia destravar-lhe o choro alegre – porque fora ela mesma quem me explicou ema vez que tinha certeza de que me amava porque a saudade de várias semanas era a “mesma-igualzinha” da dos poucos  minutos em que eu a deixava na cama pra ir buscar qualquer coisa noutro cômodo da casa. Tereza aqui estará em poucas dezenas de minutos, Tereza, Terêza.

                Compensa tudo o mais a certeza da volta. A tristeza é dispersa; depressa a inteireza da moça afastada há de estar presa-intensa, prazerosa em mim. Tereza é concreta, a viveza dessa casa, é a delícia, seu som, sua quentura, sua pressa. É ela quem chora alto, geme alto, fervilha. Tereza vai pôr a casa abaixo, vai rolar de rir e de adorar, vai zangar-se comigo e atirar as coisas contra a parede. Tereza de volta, depois de tanto descaminho e dês-saber e desfeitear. A saudade que sara, igualzinha depois de meses, exilada enfim da dúvida cruel se ela voltaria deveras ou não. É ela, é Te-rêza, sua gargalhada disparada, viva, desperta, de novo. A devida recompensa. Realeza. Invicta dádiva. Tereza do enfim.