Arquivos de janeiro de 2009

Trilhas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

(Ou: Diário dos Primeiros Dias de Estúdio Para Que Vocês Acompanhem Com Trilha Sonora Original).

 

Bati o carro na parede da garagem

E achei que fosse Deus dizendo “Filha, se beber não dirija”.

Guardei o carro; sou a pé.

Até melhor.

 

Fui ouvindo frevo – a caminhada é curta.

Todo tempo serve; a cidade é outra.

(Eu prefiro esta,

A que é vista a pé).

Ouço “Andar com Fé”

(Gil se ouve no talo.) 

Metrô Sumaré.

Ermo como eu gosto.

Gasto a Norah Jones.

Gasto o tempo só.

Saudades, sem dó.

Deixo-me ficar.

 

Algumas pessoas

Param seus olhares

Nos lugares sós -

Pairam suas memórias

No gesto de olhar.

Invento as histórias que vou anotar:

Aquela é Marisa

Aquele é Rodrigo

Ela vai ansiosa

Ele vai aflito;

Perdeu a namorada

Vai puto da vida feito todos os que já perderam

O que ‘inda não tinham.

Ela,

Nitidamente,

Vai apaixonada.

Ouço Stevie Wonder

Por pura homenagem.

 

Em meio à viagem

Um moço ao meu lado

Mira distraído

Quase todo mundo.

Passa por meu rosto,

desvia,

Volta a olhar abrupto -

Reconhece, muito.

Não lembra o meu nome…

Disfarça, olha fora

E eu rio por dentro.

Desço ainda anônima.

 

O dever me chama:

Corro até o estúdio

Numa pressa à toa.

Começa a garoa!

M a r i a B e t h â n i a.

Ajeito o volume:

Mais baixo, mais doce.

 

Chego ao trampo a tempo

Desligo o som quente

E no mesmo instante

Ouço, dentro, outro.

“Tão ouvindo o quê?”

Pergunto brilhante.

 “Ué! Bruna Garante!!!”

Sorrio gigante.

Tá ficando bom!..

 

 

O Conto das Máscaras. E sem elas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

“Por isso é que há tão pouco amor no mundo:

Porque o enchemos com deveres, com obrigações.”

Nelson Rodrigues

 

 

 

 

 

 

 

 

   Eles se encontraram numa noite inusitada e escura mas com muitas estrelas por detrás das nuvens carregadas carregadas de chuva. Ela o abraçou urgentemente e quis dizer que o amava, porém não disse nada, para ele não achar que ela era louca. Ele ensaiava dizer que nunca a esqueceria, mas ficou quieto porque uma afliçãozinha lhe pipocou o peito. Em vez de dizer seus amores, disse assim: Vem cá. E serviu.

                No dia seguinte, ele havia partido, para quaisquer lugares. Ela pesquisou: Deixaram um papel, bilhete, recado, telefone para mim por aqui? Responderam-lhe que Infelizmente, não. Ah, ele deixou um pequenino presente, só; ela suspirou doce e pensou, Por que não o telefone? Mas ele não deixara, não quisera transparecer a expectativa.

                Aí que ela voltou para a vida real que de real só tinha a falta de graça: passava os dias sonhando, pensava demais nele, arrepiava, flutuava. Não contou a ninguém o quanto andava pura porque sabia: diriam que ela estava besta ingênua. E estava. Ele, na sua vida real que era ao mesmo tempo que a dela, pensava: Onde a encontro, Meu Deus? Mas não agiu, para que não soubessem.

                Pois não é que, ela conseguiu o e-mail dele? Sorriu até por dentro, por fora, pelos cotovelos e pontas dos pés. Teve o impulso de escrever assim “Estou apaixonada por você”, seria tão forte! Mas receou; escreveu: “Fiquei feliz de te encontrar pelo mundo”, e terminou se desculpando por incomodá-lo, fazendo figas para que não fosse incômodo nada.

                Ele leu, ia responder: “Eu estou apaixonado por você”, mas teve medo. Ficou assim: “Quando li seu nome na caixa de entrada sorri um dia inteiro”, o que soou até mais poético, porém menos febril que a realidade. Ela leu e gritou de alegria, começou a responder na hora mas, fez o sacrifício de bancar a sem ansiedade: apagou e respondeu só no dia seguinte, deixando número de telefone.

                Ele quis ligar na hora! Mas o estômago embrulhou. Ela quis que o celular tocasse, mas só de pensar já respirava engraçado. Passou um dia. Nada. Dois. Ela pensou, Vai ligar só sexta ou sábado. Mas na quinta-feira bendita cor-de-laranja, ele ligou. Ela ia dizer “Não suporto mais esperar, preciso de você, não posso”, e entretanto disse, “Ah, amanhã? Pode ser, acho que posso”. O encontro ficou para o outro dia, na sorveteria.

                Ela ia cumprimentá-lo beijando-o na boca. Ele também! Mas tiveram sei lá qual siricotico e deram foi um abraço quente e em dúvida. Ele pegou na mão dela e beijou.

                Ela quase morreu na hora, mas felizmente, não.

                Então ele mandou o medo às favas e disse, disse!, que conhecê-la colorira seus dias todos inclusive os de chuva, que fora tema de sonhos, perfumara as horas. Ela sentiu coragem. Disse que o que sentia por ele era fresco, forte, inédito, e contou que desde a noite primeira mal comia, mal dormia, que tudo o que cantava e ouvia tinha o gosto dele, e era tão bom vê-lo, e o sorvete não estava ótimo?

                Ele ia responder que sim, ótimo, mas como estava pouco se lixando para o sorvete e ao invés queria provar era a boca dela, largou mão de dizer bobagens encher lingüiças e só segurou o rosto dela e beijou-a, do jeito igualzinho ao que ela se lembrava, aquele puta beijo cuja lembrança lhe rasgava a fome e o sono, e agora costurava tudo à toa. Sem pensar ela se levantou, levantou-o também trazendo-o para perto, beijou-o agarrou-o e foi lhe arrancando a roupa inteira sorrindo muito, e ele sorriu nem sabendo onde estava, brincando com ela pelas mesas em volta, e o corpo dele era lindo, os prazeres muitos.

                Os demais fregueses da sorveteria iam reclamar mas sentiram preguiça porque olhar é uma delícia sem fim! Assistiram pedindo um segundo sorvete mais gelado e pensando muito no carnaval.

                E quando o casal foi embora, de mãos entrelaçadas e olhar tranqüilo, todos viram mas fingiram que não estavam vendo nada; discrição. Só a atendentezinha, que, dizque quando o casal foi embora, deixou escapar uma lágrima daquelas prateadas, de saudade. Contudo, quem me contou isso jurou que a viu com o canto do olho, de modo que a atendentezinha nem se deu conta.

Semana na praia

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

 

 

 

              A praia é um trecho de areia, vento, água salgada e ondas com mais força que a gente. As pessoas dispostas nela se dividem em duas cores de pele: marrom e cor-de-rosa (de vez em quando, cor-de-café e branco-amarelado, cores estas que representam os extremos de ter na praia um lar e quase nunca pisar nela). Basta olhar bem o comportamento humano para comprovar que todos nós temos medo do sol: nem um minuto passa sem que se veja grande número de pessoas besuntando o corpo todo com um líquido branco que, espalhado, some. (Ou não).

                Na praia há sempre uma pedra ao longe, como uma ilha, à qual dá vontade de ir nadando. Mas a gente não vai nadando nada porque quem ousar, morre.

              Fatalmente há uma criancinha na praia inacreditável de bonita, irresistível – uma criancinha lindeza pura vestindo um chapéu branco e uma só peça de traje de banho. Nós atentamos às bochechinhas dela queimadas de sol, e pensamos que pobrezinha, vai descascar.

                Na praia, há os que correm e os que ficam sentados pensando Credo, que ânimo. Os que correm, têm corpos firmes e por isso são felizes. Os que só olham, bebem cerveja ou chupam picolé e são igualmente felizes.

                Na praia há toda qualidade de corpos. Os mais fortes e em tom marrom sugam mais nossos olhos. Quem joga frescobol naturalmente adquire uma beleza saudável. E quem fica de pé por sobre as ondas, Nossa.

                Na praia, dá um sono na gente.., e é muito difícil dormir. O calor faz gotinhas. Aí, quem gosta, mergulha no mar. A idade das pessoas é inversamente proporcional ao tempo que ficam dentro d`água. Basta ver a idade dos que estão rindo pegando jacarés.

                Na praia, os bichos são: siris, águas-vivas, peixinhos, pessoas e jacarés. Os piores são as pessoas, que fazem muito barulho e um montão de lixo. Quando têm cachorros, é divertido. Ah, e se houver pombas, há algo errado, caia fora.

                Os exercícios praianos são inúmeros! Correr, caminhar, nadar, boiar, torrar, ouvir música e paquerar. Para paquerar, basta fixar os olhos em alguém que te atraia – e, assim que a pessoa perceber, colocar óculos escuros. Aí, fácil: passe o dedo indicador por sobre as linhas do livro, mas com os olhos no alguém e não na página. Este exercício assim bem-feito pode durar muitos minutos e gostosuras.

                Entretanto, se você, como eu, tiver alguém por dentro, uma saudade assoprada, prefira ouvir música. Disponha de fones de ouvido, pouse o olhar distraído no mar e decida qual texto botar no papel assim que chegar em casa.

                Terminado o texto, assista a novela e confira as chamadas no celular, na falta do que fazer. Telefone para o seu amor e perceba de que jeito a saudade ferve com um cheiro bom. O cheio é o de maresia, você é que nunca havia reparado.

Pressentimento

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

“Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar”. J G Rosa

      
           

               Antes desse amor chegar, arrumei a casa. Quem não sabia que ele vinha? Eu tinha a certeza definida, mas nem cochichei a ninguém. Só deixei tudo bonito: a sala, a cômoda, os armários e sobretudo as janelas e portas. Deixei a certeza se espalhar inteira só por mim, feito uma benção, e sem egoísmo, embora não fosse compartilhável. Aí, cantei. Pressentimento, aquela música do Elton Medeiros com letra do Hermínio Bello de Carvalho. Os vizinhos hão de saber que esta sempre foi minha oração:  Vem, meu novo amor… Vou deixar a casa aberta…(Quando canto-a, imediatamente acredito nela. Que alívio é!..)

 

               E vi o homem, certo dia. (“Todos os dias são de repente”, diria João Guimarães Rosa me fazendo sorrir sobre o livro, aos 17 anos).  Naquele momento, o que senti foi quase diferente de minha vida toda. Suspeitei que fosse ele logo, mas não falei tão alto por dentro para que não me desse ganas de me iludir. Só senti aquilo e fiquei sentindo, feito um fiapo de dúvida que agarrei com os dedos soltos. Ah, e quando me aproximei. Quando me aproximei, foi confortável: o olhar era mais forte que o toque. O olhar é que ficou, perturbando, brilhante, minha memória. A pele esqueceu o toque - e sem avisar, o que é imperdoável. Mas a pele buscava o que perdera, tanto, tanto, tanto.

                E não é que - ? Eu não me lembrava do rosto dele!.. Indício de início de paixão: esquecer-se dos traços. Eu me deitava à noite e queria, desejava sonhar, caçava os olhos para trazer ao interior do sono, e cadê. Cadê que eu me lembrava? Aí, percorria os dias, corria descalça atrás deles na mente, e achava? Nada, só a imagem embaçada. Deus vive tirando sarro da nossa cara, e você aí que não acredita em Deus precisa atentar melhor. (Às benção, às coincidências e às imagens embaçadas que são indício de início de paixão). Espreite, ache graça.

                Pois atente ao fato de que no entanto, algumas vezes, acontecia o raro-singular: vinha a lembrança – abrupta, desenfeitada, despretensiosa - o rosto do moço! Aparecia. Não podia prendê-lo, tinha que aprecá-lo enquanto estava aqui: a feição se mostrava, pausando meu dia, o trânsito, a música, o café, o trabalho, o sol, o sonho. O rosto eu mirava por cima das coisas, e me dava uma saúde, um descanso!, a imagem ficava só enquanto eu a olhasse sem estar atenta. Sem susto. Esta é a lembrança da melhor qualidade.

                - Menina, tá apaixonada, é?

                (Nunca me afligiu o fato de os mais próximos facilmente me adivinharem).

                E era por esse pressentimento leve, que transparecia, que eu sabia, o tempo todo. Ele estava para aparecer, feito qualquer coincidência – sem ponteiros nem pontos. E até lá, eu escreveria meus dias com giz de cera, desenharia nossos nomes nas folhas invisíveis que trago para enquanto as pessoas dizem coisas sem importância.

                E cantaria (agora só canto por ele!). Cantaria Pressentimento, de manhã e à tarde, e acreditando, sem peso, só com a vontade florescida, a certeza; quem então me escutasse, saberia com certeza igual, distraída – quem escutasse já dizia sem saber: ele já vem, está vindo depressa.

Tela: Matisse. A música é a abaixo, cantada por Elizeth Cardoso, mãe das cantoras do Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulher

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
 

 

 

 

 

               Vinicius passou e não sobrou coisa nenhuma. Nenhuma? Nenhuma, nadica de nada. Das nossas conversas, da nossa incompatibilidade, da nossa vivência que era piada, dos seus olhos fechados que eu achava bonitos - Vinícius tinha cílios longos, um rosto puro. Mas não era puro. Nem bom.

 

                E nós, fomos nos desfazendo ao longo do tempo de tudo aquilo que tínhamos, criamos e destruímos nossa história. Havia sim, ali, algum tipo de paixão - mas confusa, egoísta, a gente se gostava por incômodo ou por admiração? Eu ria, era leve, acordava feliz; Vinícius só era feliz à noite, me elogiava demais, “seus cabelos são os mais bonitos que já vi na minha vida”, me fazia rir, lisonjeada, mas acordava cuspindo fogo, mal beijava, mal me via, não respirava leveza. “Bom dia!”, e ele, “Bom dia???”. Mas continuávamos, juntos, por meses - eu fazendo mais parte da vida dele do que ele da minha. Conhecia seus pais, seu irmão, seus amigos, seus vícios, sua casa – foi o primeiro namorado que me deu sua chave de casa. O orgulho que senti, comovida com sua proximidade, foi tão passageiro quanto o resto. Passei a reclamar dele para tudo quanto era gente, ficou uma frase célebre que os amigos mais próximos já completavam quando eu a dizia: “Ele é o que dá a chave de casa… mas não deixa entrar”.

 

                Vinícius não vinha à minha casa, não conhecia meus pais, meus irmãos, meu cachorro, minhas bobagens, meu quarto. Eu tão disposta a me abrir, tão já aberta, mas só queria o espontâneo – minha velha luta pelo espontâneo! -, luta esta que tornou pura burrice, eu não me impunha, não exigia, não dizia o que me feria, não bradava contra nada!, vivi muda. Maldita pressão que criamos para não fazer pressão! Não se pode falar em compromisso, perguntar, resmungar, dizer, ser infeliz, não, isso é exercer pressão demais, ser infeliz é proibido!, não é? Estúpidos conselhos, e ninguém cala a boca. Tanto esforço só para não admitir qualquer entrega. E eu com sede da entrega, lúcida, intensa. Resultado: morri sufocada pela minha própria falsa leveza, “Imagine, não somos juntos, só estamos ficando”, “sem compromisso!”. Como será que as pessoas se casam, meu Deus. Quando é que admitem tão fundo.

                E como tudo o que se guarda e amarga para dentro, de repente explodiu meu veneno. Quem cuspiu muito fogo fui eu, nesse fim, mais revigorada que um dragão, furiosa, desvalorizada, traída, mas forte, grande, superior! Estava tão farta de ser fraca! Todo o vazio que fingi inventar se encheu de orgulho, bati-lhe o telefone na cara, “Nunca mais quero falar com você! Não me ligue, não me mande mensagem, não me mande e-mail, não apareça na minha frente nem por descuido!”, pensei que nunca fosse capaz de dizer isso com tamanha convicção, cheguei a ficar admirada e contente. E ele cinicamente, como sempre, se fazendo puro como seus belos cílios longos: “Eu não, eu quero falar com você, te ver, espero que a gente se encontre sim muitas vezes…” Eu ri, queria era ferir, “Pois do jeito que eu tenho sorte, meu filho, a gente não vai se ver mesmo nunca mais”! Chamar o amante de “filho” ou “amigo”, para irritar, não falha, lhes garanto, mulheres. Eu ri, toda malícia. Nunca mais nos vimos, porque tenho sorte. Não avisei?

                Pois muito tempo depois, quando me contaram que ele estava com outra, e justo aquela outra, tive algum alívio? Qual. Tive foi uma espécie de tristeza funda, outra raiva, “Como é que um imbecil dessa categoria está cuidando de uma mulher de verdade? E ele tem essa capacidade, é? E o medinho de compromisso?” E em minutos mudei o discurso, “Ela só pode ser uma idiota! Cega!!!” Oh, meus senhores, como as mulheres são obssessivas, feitas de febre e cólera, já repararam? Antigamente eram treinadas para serem puras, princesas, mas todas as mulheres quando desafiadas ficam apaixonadamente megeras. Paixão demais. Quanto a mim, fiquei puta da vida, sem fôlego, essa baixinha não tinha nada na cabeça, meu Deus? Minha sobriedade dizia somente “Tanto faz”, porque eu sabia, do fundo do meu coração, que para mim Vinícius não prestava. Mas a casca do meu coração é grossa, como a de todos, tem despeito e orgulho e fragilidade, e esta superfície me dizia: Aquela baixinha filha-da-puta. Feia.

                Passados dois dias, ironicamente, já havia me esquecido. Se o escrevo tanto tempo depois, é para desfrutar: tenho esse costume, de aproveitar tudo de bom e mau que acontece para transformar em literatura. As histórias são tão universais. Os homens não entenderão, me dirão abrupta, vulgar, e entretanto escrevo porque sei que a escrita ousa ser bela embora os sentimentos nela, não. Sou humana, a literatura também, também o é o leitor…

                E repito a certeza de início: Vinícius passou e não sobrou coisa nenhuma. Mas corrijo: aprendi. A desconfiar. A gritar com antecedência, quando não houver o espontâneo, quando arder, fazendo falta. A ser menos fraca, nunca me perdoei por ter sido assim, apanhei da minha vulnerabilidade. Mas fiquei atenta, muito mais, fiquei difícil, mas continuo leve? Continuo. Vinícius dizia: “Em alguns momentos você é uma menina, em outros é uma mulher. Agora aí rindo e cantarolando de pé você era menina, quando pulou aqui em cima de mim virou só mulher”. E não tinha razão? Ninguém é tão raso que não te ensine alguma coisa. Fiquei mais atenta, os olhos abertos, mas soube me apaixonar outras vezes: de olhos fechados. O vermelho por dentro, na essência.

 

                Ainda bem.

imagem: Djanira

 

Carochinha

sábado, 10 de janeiro de 2009

             

                Era uma vez. A menina que se apaixonou arrebatadoramente por um moço muito bonito que chegou em sua vida muito desavisadamente – sem permissões, previsões ou quês. Assim-assim: chegou um moço!. E ele está aí.

                Um encanto, ali, entre eles, súbito: se em algum tempo foram desconhecidos, desligados um do outro, esse tempo era de há, longe, era excesso - tempo que sumiu no horizonte, tempo que não tem por onde puxar. E agora, agora sim!, era o tempo existente real, tempo-presente, que pulsa estoura transcende revolve,

           e a história deles se inventando, graciosa;  era um presentinho do acaso, feliz feliz feliz.

                A Menina e o Moço: ancoraram-se um no outro, e àquela calma quente que exalava deles quando perto, àquilo chamaram-lhe Amor. E eram a Menina o Moço; Mulherão e Menininho; Tia, Tio; Tigresa, Canguru – bendita língua estúpida e invejável dos amantes, em sua despudorada perdição.

                E não há recanto onde caiba a dúvida de que eles foram felizes como não se imagina – e felizes muito para sempre, porque viviam felizes já-hoje, e Hoje tinha toda a maior beleza que o Sempre teima roubar:

Hoje chamava-se A Menina e o Moço.

               

      E esta página é sem fim

 

 

 

 

(Agosto, 2004.)

 

 

Sereno

domingo, 4 de janeiro de 2009

               

                 Ele tem uma sensualidade sobrenatural. Era o que Maria pensava beijando muito o pescoço de Tomás, que ninguém sabe o que dizia por dentro. Por fora, ofegava.

                 - Você é lindo! – Ela dizia macia, e chegando mais perto, provocava com a voz rouca, voz de férias – E muito gostoso…

                  Ele ria (desde que beijara-a pela primeira vez, ria à toa), ficava ainda mais quente, e de repente só parava, contornava as sobrancelhas dela e a abraçava tão terno que, Maria nem compreendeu: ficava comovida! A febre era esperada, mas o toque doce desarmava-a, sofria, Maria quase chorava nos braços dele!..

                  Estavam na varanda de casa, a escuridão era imensa porque àquele horário em toda Ilha não havia luz elétrica. Isso dava o tom denso - e a vida dava o tom proibido - àqueles dois, que mais se exaltavam, espremiam as coxas um no outro, uma sede, uma pressa, mortal, meu Deus.

                - Eu não sei como vai ser, depois, eu tenho uma história em São Paulo e…

                - Psiu, que São Paulo o quê! – Ela sorria maliciosa. – Nós estamos num universo paralelo, não quero saber mais nada… Aqui pode tudo, sabia? – Falava perfumadamente, arranhava a barriga dele de baixo para cima, como quisesse ver mais embaixo.

                Ele agarrou-a de novo (feito aquele momento em que todas as luzes se apagaram, quando ele a agarrou primeiro, tão sem pudor, tão bom!), puxava para cima uma das pernas dela o máximo possível, trazendo-a enlaçada até a altura do peito (viva o alongamento), ela mencionara a bailarinice ou ele é que estava ousando?, aí ela respirava mais alto do que se falasse. Quando falou, foi sussurro:

                - Você vai embora amanhã que horas?

                - Oito.

                - Oito, da manhã??? - (Tudo o que eles diziam soava quente e dramático).

                - É.

                - Não acredito… – Triste, ela encostava a testa no peito dele, um aperto na garganta, não podiam se ver amanhã só um pouquinho? Só um pouco, um pouquinho de nada, nada?..

                Ele adivinhou-a, compreendia, demais:

                - Eu sei…

                Para consolá-la é que passou os lábios por todo pescoço dela, já sem pressa, brincou com seus cabelos, beijando-a quase na nuca que os cabelos muito curtos revelavam.

                Virou-a, instigado pela nuca, queria era passar a língua por toda ela. E ela, ela girou numa aflição apaixonada, um desejo nem sei de que tamanho, colou forte suas costas nele, que puxava seus quadris mais para cá, para que ela soubesse, desejasse, conhecesse o desejo dele por tato, era como se já estivessem fazendo grandes sacanagens sem terem despido nada. Lambiam-se, o escuro enorme nem via.

                - Tomás, vamos para a praia, por favor, já…

                - Está chovendo, até agora não parou de chover!..

                - Vamos dormir juntos um na casa do outro, então…

                Ele tornou a girá-la, de frente, tomou o rosto dela, a boca entreaberta, pedindo, e tateou a boca:

                - Mas seu quarto está vazio??? – Ele se animava.

                - Hum… Não!.. – Ambos riram. – A gente podia pelo menos tentar dormir, junto…

                - Maria! – Chamava em tom de bronca, tirava sarro da pureza pouca: - Não vai dar certo, linda, olha como a gente está! – De fato, até inspiravam alto. – Eu não vou conseguir dormir, nem sozinho! Só se tiver aí um balde de gelo!

                Gargalhavam. Há quanto tempo se conheciam para rirem assim? Tão íntimos, tão - tão fortes? Pois pareciam existir há muito, tivessem raízes e seria igual, feito uma despedida longa, mas funda - e a verdade é que não existiam senão há uma hora! – Haviam passado os últimos dias se olhando de longe, apenas, só que muito, num tanto até constrangedor, às vezes se olhavam acompanhados por outros; e algo nascera dos olhares cúmplices. Não haviam se dito palavra senão hoje (E hoje ela prometeu-se durante a tarde que, se não terminasse a noite nos braços dele, não se chamaria Maria. Apostou consigo mesma uma dose de pinga).

                Tudo era possível entre eles. Hoje, tudo.

                Esse pensamento rodopiava o ar e abafava-os ali à porta da casa onde os amigos dormiam provavelmente ouvindo, imaginando. Quem estaria se pegando assim na varanda? Alguém chegou a reclamar, “Psiu”! Isso instigava mais fogo, apesar que chovesse, demais: nem podiam sair até a praia, onde toda quentura é mais foda, aliás já sabiam a essa altura que o sexo deles seria de matar, de doer. Ela desabotoava sua calça, meio em dúvida, e se os ouvissem?, ah!, era outra mulher dentro dela quem desafiava, seguia.

                - Caralho, você é… – Ele nem continuou. Provavam os limites da situação, crescendo e parando, o medo aprovava.

                Às vezes se continham juntos, cheios de dificuldade, tentando se desvencilhar. Paravam num abraço firme, a respiração de sufoco. Não adiantava. Num desses quase-silêncios ele passou um só dedo muito leve entre os seios dela. Ah, os pontos fracos…

                - Hum… não faz isso… – Ela soprou. A carícia era quase dolorosa, prendia-a mais e fazia-a pensar o que é que faria sem esse homem depois.

                Pedir-lhe para não fazer foi botar faísca clamando que sim. Ele achou-a mais bela, baixou o rosto e beijou-a ali, passando todos os dedos muito leves naquela pele quente, ela - sem exagero - se contorcia toda. Gastar esse arrepio deixou-o mais intenso, apertou-a mais forte, nas pernas, na bunda, nas costas, nos ombros, no rosto.

                - Você é louco, não agüento… Preciso ir…

                Dizia, também, para testar-lhe. Ele caía: tornava a prende-la. Que sentimento era aquele invisível, cego, explodindo, desafiando o breu? Ele era talentoso. E quem era, quem era este homem que a acendia com propriedade, livre, permitido, percorrendo, abrasando-a? Prendia-a com familiaridade. Ela não o enxergava porém se lembrava daquele olhar de todos os dias.

                Disse que tinha que ir novamente e fez o esforço infinito: soltou-o. Ele avançou na escuridão:

                 - Cadê você???

                 Mas agarrou-a em cheio:

                - Fica só mais um pouquinho, fica, pelo amor de Deus!..

                “Pelo amor de Deus”, pensou ela, “Pelo amor de Deus”? O aperto na garganta de novo!, ficava assim tão comovida, por que é que quase chorava? “Ele sente o mesmo que eu”, pensou em esperança, uma esperança brilhante a flutuar, enxugando o desespero.

                Ficou e beijou-o sorrindo, ele ria à toa de novo. Ele tinha alguém, e ela tinha outros, dos dias anteriores, mas tudo antes fora brincadeira, passagem, agora era diferente; hoje os dois, hoje só os dois.

                - Ainda bem que o cara lá que você ficou não passou por aqui nem uma vez…

                - Pára, vai.

                - Vem cá.

                Seria crueldade deles falar assim numa honestidade lasciva? Quantas outras histórias eles estavam traindo sem piedade nenhuma, sem vergonha? Ele acariciou sua cintura por debaixo da blusa, fez que ia despi-la dali para baixo, brincou, e enfim, só disse, espontâneo, trazendo-a:

                - Maria, o que quer que aconteça com a gente… – “Com a gente? O que é a gente?”, ela pensava tonta, “Ele me ama por hoje!”, concluía numa ingenuidade sem nexo, ele continuava espontâneo, dizia: – sabe o que eu quero?

                Ela no anseio medroso:

                - O quê?

                - Eu quero que você seja assim sempre, sorrindo… – A voz dele vinha de longe, ela previu palavras fundas, tentou afasta-las – Seu sorriso é maravilhoso, é.., quando você sorri, clareia tudo, as pessoas mudam, e essa sua sobrancelha.., é linda, sua alegria, seu jeito, de longe a gente fica melhor…

                Mas   p o r  q u e   ele dizia isso? Por quê??? Emocionava e feria, ela tentava embaralhar as palavras, não cravar sentido, porque sabia, era um assalto, e apesar de nada ver, ela fechou os olhos, baixou o rosto incrédula, encostou a testa no peito dele de novo acenando com a cabeça que não, que não continuasse, soprou que ele parasse e no entanto, no entanto ele apertou-lhe a nuca e continuou, agora no ouvido, num tom nobre:

                - Eu quero que você sorria assim sempre, onde for, em qualquer lugar. – Falava com clareza, com açúcar: - Promete?

                Ela amava-o!, que mais se pode dizer? Nem era nem susto pra ela!: todas as suas paixões haviam nascido súbitas e incoerentes, ela sentia um orgulho do próprio disparato: era de nascença. Amou-o, imediatamente! Sentiu vindo amargo um arrependimento todo, por ter dito que não esperava nada, que aquele era um universo à parte, por que dissera isso? Que história ele tinha na vida real? Mas ali era maior, era melhor que o real.

                - Tomás, de onde você veio… Prometo, mas pára… – contornou-lhe a boca na ponta dos dedos – Obrigada.

                O agradecimento era não só pelo dito, mas pelo bem sem fim que ele estava lhe fazendo. Doía como um golpe. Ela estava doída, doida de feliz, perdida, tudo era difícil, e fácil, a noite passava fugida do tempo real.

Invadiam-se, desde dentro: estavam irrefreáveis um no outro. Ela ainda com a sensação fina de que ele não precisava ter dito essas coisas, podia ter sido só e apenas mais um, sem importância, de passagem, por que não o havia sido? Por que preferiu ser especial, naquele encontro sem futuro? Apertou-lhe os braços (uma das coisas de que ela mais gostava nos homens era o muque, “não um puta muque, só um muquinho”, ela dissera rindo, ele já sabia segredos), e ele gemeu, Ele tem uma sensualidade quase sobrenatural. Não disse?

                - Quer que eu vá embora? Você acorda já-já – disse ela sorrindo, não pedira?

                - Não é que eu quero, nada disso…

                - Eu sei, mas vai amanhecer…

                - Tá bom, mas fica só mais um pouco, fica só mais um pouquinho. – Repetia-se a cena incansável.

                Tornou a tateá-la, mordê-la, apertá-la e assoprá-la enquanto o negrume da noite ia quase azulando; a chuva seguia sem se importar. Ah, não fosse a chuva, teriam ido à praia… Que sede. Só havia em todo o mundo aquela varanda, mais nada, nem vocês, nem os que dormiam ouvindo calores. Os dois brincaram por mais muito tempo, num tempo daquele que não tem minutos - aquele que não cabe preso.

                Despediram-se ainda com a fome indecente, e só em seguida, ao tentarem em vão dormir, tiveram, cada um em seu quarto, a mesma certeza úmida: aquele era, sim, um universo paralelo. Aquilo era à parte, alheio a tudo.

                E era capaz que eles jamais se encontrassem de novo.