Ele tem uma sensualidade sobrenatural. Era o que Maria pensava beijando muito o pescoço de Tomás, que ninguém sabe o que dizia por dentro. Por fora, ofegava.
- Você é lindo! – Ela dizia macia, e chegando mais perto, provocava com a voz rouca, voz de férias – E muito gostoso…
Ele ria (desde que beijara-a pela primeira vez, ria à toa), ficava ainda mais quente, e de repente só parava, contornava as sobrancelhas dela e a abraçava tão terno que, Maria nem compreendeu: ficava comovida! A febre era esperada, mas o toque doce desarmava-a, sofria, Maria quase chorava nos braços dele!..
Estavam na varanda de casa, a escuridão era imensa porque àquele horário em toda Ilha não havia luz elétrica. Isso dava o tom denso - e a vida dava o tom proibido - àqueles dois, que mais se exaltavam, espremiam as coxas um no outro, uma sede, uma pressa, mortal, meu Deus.
- Eu não sei como vai ser, depois, eu tenho uma história em São Paulo e…
- Psiu, que São Paulo o quê! – Ela sorria maliciosa. – Nós estamos num universo paralelo, não quero saber mais nada… Aqui pode tudo, sabia? – Falava perfumadamente, arranhava a barriga dele de baixo para cima, como quisesse ver mais embaixo.
Ele agarrou-a de novo (feito aquele momento em que todas as luzes se apagaram, quando ele a agarrou primeiro, tão sem pudor, tão bom!), puxava para cima uma das pernas dela o máximo possível, trazendo-a enlaçada até a altura do peito (viva o alongamento), ela mencionara a bailarinice ou ele é que estava ousando?, aí ela respirava mais alto do que se falasse. Quando falou, foi sussurro:
- Você vai embora amanhã que horas?
- Oito.
- Oito, da manhã??? - (Tudo o que eles diziam soava quente e dramático).
- É.
- Não acredito… – Triste, ela encostava a testa no peito dele, um aperto na garganta, não podiam se ver amanhã só um pouquinho? Só um pouco, um pouquinho de nada, nada?..
Ele adivinhou-a, compreendia, demais:
- Eu sei…
Para consolá-la é que passou os lábios por todo pescoço dela, já sem pressa, brincou com seus cabelos, beijando-a quase na nuca que os cabelos muito curtos revelavam.
Virou-a, instigado pela nuca, queria era passar a língua por toda ela. E ela, ela girou numa aflição apaixonada, um desejo nem sei de que tamanho, colou forte suas costas nele, que puxava seus quadris mais para cá, para que ela soubesse, desejasse, conhecesse o desejo dele por tato, era como se já estivessem fazendo grandes sacanagens sem terem despido nada. Lambiam-se, o escuro enorme nem via.
- Tomás, vamos para a praia, por favor, já…
- Está chovendo, até agora não parou de chover!..
- Vamos dormir juntos um na casa do outro, então…
Ele tornou a girá-la, de frente, tomou o rosto dela, a boca entreaberta, pedindo, e tateou a boca:
- Mas seu quarto está vazio??? – Ele se animava.
- Hum… Não!.. – Ambos riram. – A gente podia pelo menos tentar dormir, junto…
- Maria! – Chamava em tom de bronca, tirava sarro da pureza pouca: - Não vai dar certo, linda, olha como a gente está! – De fato, até inspiravam alto. – Eu não vou conseguir dormir, nem sozinho! Só se tiver aí um balde de gelo!
Gargalhavam. Há quanto tempo se conheciam para rirem assim? Tão íntimos, tão - tão fortes? Pois pareciam existir há muito, tivessem raízes e seria igual, feito uma despedida longa, mas funda - e a verdade é que não existiam senão há uma hora! – Haviam passado os últimos dias se olhando de longe, apenas, só que muito, num tanto até constrangedor, às vezes se olhavam acompanhados por outros; e algo nascera dos olhares cúmplices. Não haviam se dito palavra senão hoje (E hoje ela prometeu-se durante a tarde que, se não terminasse a noite nos braços dele, não se chamaria Maria. Apostou consigo mesma uma dose de pinga).
Tudo era possível entre eles. Hoje, tudo.
Esse pensamento rodopiava o ar e abafava-os ali à porta da casa onde os amigos dormiam provavelmente ouvindo, imaginando. Quem estaria se pegando assim na varanda? Alguém chegou a reclamar, “Psiu”! Isso instigava mais fogo, apesar que chovesse, demais: nem podiam sair até a praia, onde toda quentura é mais foda, aliás já sabiam a essa altura que o sexo deles seria de matar, de doer. Ela desabotoava sua calça, meio em dúvida, e se os ouvissem?, ah!, era outra mulher dentro dela quem desafiava, seguia.
- Caralho, você é… – Ele nem continuou. Provavam os limites da situação, crescendo e parando, o medo aprovava.
Às vezes se continham juntos, cheios de dificuldade, tentando se desvencilhar. Paravam num abraço firme, a respiração de sufoco. Não adiantava. Num desses quase-silêncios ele passou um só dedo muito leve entre os seios dela. Ah, os pontos fracos…
- Hum… não faz isso… – Ela soprou. A carícia era quase dolorosa, prendia-a mais e fazia-a pensar o que é que faria sem esse homem depois.
Pedir-lhe para não fazer foi botar faísca clamando que sim. Ele achou-a mais bela, baixou o rosto e beijou-a ali, passando todos os dedos muito leves naquela pele quente, ela - sem exagero - se contorcia toda. Gastar esse arrepio deixou-o mais intenso, apertou-a mais forte, nas pernas, na bunda, nas costas, nos ombros, no rosto.
- Você é louco, não agüento… Preciso ir…
Dizia, também, para testar-lhe. Ele caía: tornava a prende-la. Que sentimento era aquele invisível, cego, explodindo, desafiando o breu? Ele era talentoso. E quem era, quem era este homem que a acendia com propriedade, livre, permitido, percorrendo, abrasando-a? Prendia-a com familiaridade. Ela não o enxergava porém se lembrava daquele olhar de todos os dias.
Disse que tinha que ir novamente e fez o esforço infinito: soltou-o. Ele avançou na escuridão:
- Cadê você???
Mas agarrou-a em cheio:
- Fica só mais um pouquinho, fica, pelo amor de Deus!..
“Pelo amor de Deus”, pensou ela, “Pelo amor de Deus”? O aperto na garganta de novo!, ficava assim tão comovida, por que é que quase chorava? “Ele sente o mesmo que eu”, pensou em esperança, uma esperança brilhante a flutuar, enxugando o desespero.
Ficou e beijou-o sorrindo, ele ria à toa de novo. Ele tinha alguém, e ela tinha outros, dos dias anteriores, mas tudo antes fora brincadeira, passagem, agora era diferente; hoje os dois, hoje só os dois.
- Ainda bem que o cara lá que você ficou não passou por aqui nem uma vez…
- Pára, vai.
- Vem cá.
Seria crueldade deles falar assim numa honestidade lasciva? Quantas outras histórias eles estavam traindo sem piedade nenhuma, sem vergonha? Ele acariciou sua cintura por debaixo da blusa, fez que ia despi-la dali para baixo, brincou, e enfim, só disse, espontâneo, trazendo-a:
- Maria, o que quer que aconteça com a gente… – “Com a gente? O que é a gente?”, ela pensava tonta, “Ele me ama por hoje!”, concluía numa ingenuidade sem nexo, ele continuava espontâneo, dizia: – sabe o que eu quero?
Ela no anseio medroso:
- O quê?
- Eu quero que você seja assim sempre, sorrindo… – A voz dele vinha de longe, ela previu palavras fundas, tentou afasta-las – Seu sorriso é maravilhoso, é.., quando você sorri, clareia tudo, as pessoas mudam, e essa sua sobrancelha.., é linda, sua alegria, seu jeito, de longe a gente fica melhor…
Mas p o r q u e ele dizia isso? Por quê??? Emocionava e feria, ela tentava embaralhar as palavras, não cravar sentido, porque sabia, era um assalto, e apesar de nada ver, ela fechou os olhos, baixou o rosto incrédula, encostou a testa no peito dele de novo acenando com a cabeça que não, que não continuasse, soprou que ele parasse e no entanto, no entanto ele apertou-lhe a nuca e continuou, agora no ouvido, num tom nobre:
- Eu quero que você sorria assim sempre, onde for, em qualquer lugar. – Falava com clareza, com açúcar: - Promete?
Ela amava-o!, que mais se pode dizer? Nem era nem susto pra ela!: todas as suas paixões haviam nascido súbitas e incoerentes, ela sentia um orgulho do próprio disparato: era de nascença. Amou-o, imediatamente! Sentiu vindo amargo um arrependimento todo, por ter dito que não esperava nada, que aquele era um universo à parte, por que dissera isso? Que história ele tinha na vida real? Mas ali era maior, era melhor que o real.
- Tomás, de onde você veio… Prometo, mas pára… – contornou-lhe a boca na ponta dos dedos – Obrigada.
O agradecimento era não só pelo dito, mas pelo bem sem fim que ele estava lhe fazendo. Doía como um golpe. Ela estava doída, doida de feliz, perdida, tudo era difícil, e fácil, a noite passava fugida do tempo real.
Invadiam-se, desde dentro: estavam irrefreáveis um no outro. Ela ainda com a sensação fina de que ele não precisava ter dito essas coisas, podia ter sido só e apenas mais um, sem importância, de passagem, por que não o havia sido? Por que preferiu ser especial, naquele encontro sem futuro? Apertou-lhe os braços (uma das coisas de que ela mais gostava nos homens era o muque, “não um puta muque, só um muquinho”, ela dissera rindo, ele já sabia segredos), e ele gemeu, Ele tem uma sensualidade quase sobrenatural. Não disse?
- Quer que eu vá embora? Você acorda já-já – disse ela sorrindo, não pedira?
- Não é que eu quero, nada disso…
- Eu sei, mas vai amanhecer…
- Tá bom, mas fica só mais um pouco, fica só mais um pouquinho. – Repetia-se a cena incansável.
Tornou a tateá-la, mordê-la, apertá-la e assoprá-la enquanto o negrume da noite ia quase azulando; a chuva seguia sem se importar. Ah, não fosse a chuva, teriam ido à praia… Que sede. Só havia em todo o mundo aquela varanda, mais nada, nem vocês, nem os que dormiam ouvindo calores. Os dois brincaram por mais muito tempo, num tempo daquele que não tem minutos - aquele que não cabe preso.
Despediram-se ainda com a fome indecente, e só em seguida, ao tentarem em vão dormir, tiveram, cada um em seu quarto, a mesma certeza úmida: aquele era, sim, um universo paralelo. Aquilo era à parte, alheio a tudo.
E era capaz que eles jamais se encontrassem de novo.