Arquivos de dezembro de 2008

31.

sábado, 27 de dezembro de 2008

 

                Acabou-se. Não: continua. A divisa só serve para se olhar de um certo ponto e refletir. Ou sentir, só.  Um ano! O ponto final-inicial não é pausa nenhuma, é só um espaço em branco dentre todos os acontecimentos, mas a este espaço em branco nós vamos brindar. E amar.

                O bonito é inventar a divisa e depois chorar e comemorar a invenção dela, como choramos e comemoramos a invenção de Deus: sem jamais admiti-la. Porque ela é necessária, nos torna melhores, nos salva. Agradecemos a divisa do tempo orando, e ficamos muito naturalmente humanos. E próximos, e livres do que quer que nos amarrasse. É novo o ano, os dias aguardando como folhas em branco, limpos, como todos? Sim, como todos, mas o que importa é que dizemos: paremos um minuto. Não vê? É tão diferente! Paremos, é o que nos ordenamos, e para quê? Só para perdoar, para esquecer, para lembrar. Paremos só para acharmos bonito mesmo aquilo o que nos fez sofrer, para vermos de quer cor está sendo escrita nossa história, e se esta cor nos agrada, pois a história é nossa, e para festejarmos mesmo os viveres difíceis com a alegria de quem sabe que aprende e é ingênuo: festejamos com a certeza de que tudo o que vem em seguida é tão bom!

                E é por isso!, que ficamos juntos, exageramos, cantamos, bebemos, nos abraçamos, dizemos coisas bonitas, as mais bonitas possíveis, e Deus manda a chuva, porque Deus concorda que é reveillon. E limpa comovido o último dia para iluminar o inédito. (O dia inédito é sempre branco, da cor que vestimos, já repararam?). A noite dura muito mais horas que o normal mas fingimos não perceber, e quem mal se conhece já se gosta desde já, ao fim fervoroso da contagem regressiva!

 

                A festa é imensa, a pausa purifica, o tudo melhora, a gente flutua e Deus ri. É assim que Hoje vira o Ano Que Vem.

 

(Escrito em 31 de dezembro de 2007// Para 2008)

 

25

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

 

 

               

                São 18h45 e acabo de acordar para a missa de natal à qual minha avó faz questão de que todo mundo vá. Faço o café cura-ressaca, meus primos na cozinha cantando e tocando violão riem da minha cara de pão e dos cabelos que acordam curtíssimos de tão cacheados.

                - Come um bombocado que sara!!!

                Chove e faz sol, intensa e alternadamente. Como sempre, tudo no dia parece dizer que é Natal. Todos, num acordo de gratidão silenciosa, vestem ou usam os presentes que ganharam na noite anterior. E se elogiam.

                Todos nós esperamos o ano inteiro por esta noite longa e brilhante. Tradicionalmente, vovó começa com um discurso e todos de mãos dadas rezam o Pai-Nosso, mas o que gosto mesmo é de rezar a Ave-Maria que vem em seguida. Não sei porque, mas acho que sempre pensei que Deus fosse mulher.

                A cerimônia segue com uma cantoria maluca - quem passa na rua pode desconfiar se tratar de um ensaio. São mil vozes (na verdade, cerca de quarenta), femininas e masculinas, à moda Fat Family; o Noite Feliz fica até original. E vem o infinito e delicioso amigo secreto!, no qual provamos que a prática leva à perfeição: a cada ano os discursos sobre os parentes parecem se aprimorar, ficando mais comoventes ou engraçados. Rimos, choramos, bebemos, presenteamos, e termino sempre decidindo que no ano que vem vou comprar mais presentes e começar a comprá-los mais cedo. O ano que vem chega e acabo comprando igual e começando a tratar do assunto lá pelo dia 20 de dezembro em meio à euforia natalina generalizada.

                Vem a ceia (há quem coma pouco para beber mais!), e a leva de primos jovens-e-adultos sai. É uma balada atípica, não pela chuva que parece ter errado a data do reveillon, e sim porque todos chegam mais serenos que o natural e ao invés de dizer Oi tudo bem, dizem Feliz natal.

                Voltamos depois das 6h da manhã, horário em que se aglomeram na porta da casa um bando de primos se perguntando quem é que tem a chave. Momento também no qual provamos que a prática só leva ao costume burro: há anos saímos e ninguém se ocupou em fazer sua cópia, o que torna comum pela manhã o hábito de bater às janelas chamando baixinho pelos parentes que dormem ou mesmo dormir dentro do carro. Chegado um salvador-da-situação, entramos e tomamos o lanche da madrugada (manhã) estabanadamente, em meio a risadas zonzas e rouquinhas. Não, o resto da família não acorda com o barulho. Milagre natalino.

                E hoje, após a longa sesta, quando é hora de ir à missa, consigo apenas sentir o desejo irresistível de ganhar uns dias a mais entre o Natal e o ano-novo. Amanhã já vou pra São Paulo, preciso desfazer e refazer outra mala, viajar de novo, passar no estúdio, ligar pra umas pessoas, e já estou com saudades de Avaré… Faço o café e a xicrinha da casa da minha avó me dá mais saudades. Ninguém abriu o pannetonne de 4 quilos ainda, mas certamente não é isso o que imediatamente me emociona enquanto todos os cachorros da família latem misturados lá fora. Só pode ser o fato mesmo de todos estarem tomando meu café e rindo e cantando continuando a noite de ontem. Tão generosos estamos todos, este dia é bonito demais!, e as pessoas iluminadas e as crianças brilhantes.

 

                Escrevo sentada no banco da igreja esperando que nenhum deles me censure. Não censuram. Desconfio mesmo que quando lerem o que escrevi para guardar o dia melhor, ficarão ainda mais assim, cheios de uma felicidade clara, mansa.

 

 

Salve a genética!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

 Clique para ouvir: Azulão/Cidades  

 

 

             É, minha gente, estamos há uma semana do natal! E, antes que eu não resista e escreva sobre esta data, que me é muito querida desde pequenininha, escrevo para contar uma grata surpresa que tive esses dias e já foi um presentaço de natal: foi lançado um cd no qual fiz uma participação especial. Especial, não: mais que especial. Simplesmente porque tive a honra de gravar com… a minha avó!!! Cara a cara no estúdio! Pode? Pode! É um sonho realizado…

                A tempo: o disco chama-se Aldeia, foi produzido por Juca Novaes, e é todo em homenagem à cidade de Avaré, onde nasci. Todas as composições e artistas nele são avareenses.  Com vocês, Bruna Caram e Maria Novaes cantando “Cidades”. A música incidental é “Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira. 

                 O encarte traz este texto do produtor:

 

                “(…) Música premiada em festivais, a letra original tem duas partes, a primeira enfocando Avaré, e a segunda São Paulo. Aqui ela é mostrada apenas em sua primeira parte, na voz de Bruna Caram, minha sobrinha, novo talento da música brasileira, neta da também cantora Margarida Piedade Novaes, minha mãe (artisticamente conhecida como Maria Piedade, premiada como Estrela do 4º Centenário de São Paulo, em concurso promovido pela famosa rádio Nacional, em 1954). Há muitos anos, ouvi minha mãe cantando ‘Azulão’ num concerto de piano organizado por Dona Esther Novaes no Centro Avareense. Desde então, esta maravilhosa canção habita meu imaginário musical. Assim, quando decidi incluir ‘Cidades’ no disco, tive a idéia de reunir no arranjo o ‘Azulão’, exatamente daquele jeito que ouvi nos anos setenta. Com isso, reuni não apenas as duas canções, mas as vozes dessas duas cantoras de diferentes gerações, a avó e a neta. Minha mãe e minha sobrinha. E pude contar ainda com o especialíssimo arranjo do Keko Brandão, um dos grandes músicos brasileiros.”

 

               

Obs: para adquirir o cd, envie um e-mail para luadobrasildiscos@gmail.com

Salve a Crítica!

sábado, 13 de dezembro de 2008

 

               São inúmeras as possíveis reações ao ler uma crítica ou reportagem a seu respeito quando se é artista: eu, já ri, já saltitei pela rua, já chorei de alegria, já chorei de emoção, e já chorei também de raiva, com falas distorcidas, destaques mal-intencionados e fotos horrorosas, ui! Aprendi a me afetar menos com esses desastres do ofício. Acontece que felizmente a sensibilidade é osso duro de roer e tive a grata surpresa de receber hoje por e-mail uma cópia desta que deve ter sido a melhor crítica já escrita sobre um show meu. Afetou-me sim!, em cheio: poética, sensível… E fresca: foi publicada em Curitiba, agora em Novembro, quando fizemos três shows por lá. Não pude deixar de colocar aqui, para dividir.

Viva a sensibilidade. Que ela se espalhe. (E o meu som também!) Amém!

 

 

 

VOZ QUE CALA FUNDO

 

                “Foi uma surpresa para quem já conhecia o disco, o que se dirá então de quem nem conhecia a moça e foi ao Teatro da Caixa movido apenas por curiosidade. Sem perder o jeito de menina, a cantora paulista Bruna Caram impressionou a platéia com sua voz de tons contrastantes, capaz da delicadeza frágil dos graves quase sussurrados e da potência de agudos encorpados, que calam fundo, dos quais ela se serve com a segurança de quem tem apenas 22 anos, mas canta desde os 9.

                A combinação se reflete na sua presença de palco, em interpretações com um quê dramático, como nas versões para o clássico de Roberto Carlos “Outra Vez” (composto por Isolda) – no qual, por um momento, é possível se iludir de que a intérprete sucumbiu ao pranto – ou “Beijo Partido”, de Toninho Horta. Levam a crer que, quando cumprir a intenção revelada no palco de um dia gravar um disco apenas de “fossa e vingança”, Bruna fará um registro de embargar a voz de quem ouve.

                (…) O frescor de “Essa Menina”, a veia dramática de “Um Blues”, e a preferida da cantora, “Sensação”, estão entre os grandes momentos do show – dos quais não seria justo deixar de destacar a bela contribuição ao violão do produtor Alexandre Fontanetti.

                As três apresentações em Curitiba fazem parte de uma turnê que está chegando ao fim. Bruna Caram, no momento, já prepara o seu segundo disco. Vale a pena ficar atento à garota, cujos talento e personalidade prometem mais boas surpresas para o futuro.

Por Luciana Romagnolli

Gazeta do Povo. Curitiba, 18 de Novembro de 2008.

Da Cegueira

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

         Pensou que ia ser fácil, Maria, foi ou não foi? Foi, no aeroporto. Quando ficou abraçada a Marcelo que enfeitava seu rosto de beijos, tentou decorar, tentou mais saber, que gosto ele tinha, o peso de cada braço, o cheiro da pele dele; chorou mas foi pura, que nem criança: chorou mas poderia esquecer o motivo à primeira distração que lhe apresentassem, choro-leve, por isso achou mais delicioso que nunca seu marido-noivo Marcelo quando se despediu, e pensou que eles nem mais se veriam na vida, mas que não tinha problema, já tinham construído tanto a beleza só deles. E realmente, no fundo pensou que ia ser fácil. Só porque previa as maiores distâncias.

 

         Acontece que - só Deus para se rir de tamanhas pequenas desgraças do amor - passou a semana em lonjuras, e a cama solteira aumentava assombrosa a cada noite, Maria sozinha, a princípio nem doía, só incomodava, qual coceira; bebia uma água, pensava a letra de uma música, dormia, passava. Aí mais noites passaram, houve mais músicas, a cama anoitecia, ciúmes, Maria nem sabia do quê, e foi ficando fraquinha, adoeceu, aí que doía.

 

         Aí chamou por Marcelo só um pouquinho, antes de dormir, nem deixou-o tempo para atender ao chamado, só quis tocar, Finge que é pra ver se toca ou emuda ou dá sinal de ocupado, nem tinha nada o que dizer. No dia seguinte, já melhor, meditosa na fase de fim da convalescença, Marcelo ligou. Só seu nome já enfeitava o escuro, piscando na tela brilhante do celular - “marcelo-delícia chamando”. Certas graciosidades vêm a calhar. Ouviu a voz dele, demais diferente, ou não, e foi melhorando, sorrindo, como quando já disse Te amo seu doido, e mesmo quando ele não respondesse, certas frases não carecem da contra-proposta. Maria, uma gotinha ainda cansada da doença, evaporava gotinhas, cantava por dentro ao ouvir a voz fervente de Marcelo. Chorou ao desligar o telefone e se sentiu tão boba. Sabia que ia ser assim ou pensou que ia ser fácil? Chorava cantando por dentro, fazendo chuvas e sóis, nem tão mais tarde que as serpentinas. Marcelo era carnaval o ano inteiro e Maria tinha saudades e ciúmes do ano inteiro que na vida real não continuava carnaval. E pensar que ia ser fácil, se afastar de um homem desses, Maria francamente às vezes não enxerga a um palmo do nariz.

 

Sabedoriinha

sábado, 6 de dezembro de 2008

   

Quem quer que já tenha convivido com uma criança sabe: elas são – e nos tornam - mais inteligentes. Não é uma inteligência intelectual, nem funda, nem elaborada, aliás, é mais que esta inteligência que valorizamos entre nós adultos; é uma sabedoria. Sabedoria de quem enxerga e pensa o mundo com mais leveza, e mais cor: com mais alegria! É uma sabedoria branda. Descompromisso. As crianças riem das nossas preocupações, e se encantam mais que do se preocupam. Pode? Claro que pode. 

Nunca escondi: meu sonho é poder voltar a ser criança só um pouquinho. E realizo-o, ficando ao redor delas, capturando o que elas têm.

Coleta-se histórias de sabedoriinha como estas aqui!

 

 

Uma amiga minha é professora numa escolinha – seus alunos têm entre 2 e 3 anos. Outro dia, um aluno lhe disse:

“Sabia que eu ainda só tenho dentes de leite? Minha irmã, não, ela já tem dentes de café!”

 

 

Ou: dia desses, combinei de ir assistir filme com meu irmãozinho de 3 anos. Combinei, mas não fui. Pesou minha consciência e no dia seguinte fui lá e perguntei a ele:

- Cezarinho, você ficou triste que eu não vim aqui ontem?

- Eu??? Não!

Achei graça:

- Ah! Então tá bom.

Ele, que estava almoçando, pensou mais um pouco comendo e disse:

- Bru… Isso não é de ficar triste!!!

- Ah… não?

- Não.

- Então… O que é?

- De ficar triste é quando machuca a gente! Ou bate na gente… – Comeu mais um pouquinho e se animou, falando alto: - Ou ficar sem mãe, sem pai, sem babá! Sem quarto, sem cama, sem mesa, sem papá, sem prato… – E começou a apontar tudo o que via, rindo: - Sem arroz, sem feijão, sem cenoura, sem suco!

 

O próprio Cezarinho, um belo dia, escutei de longe, chorando enquanto a babá secava seus cabelos com o secador. Fui até lá questionar tanta manha:

- Cezarinho, por que é que você está chorando pra Rê???

- Eu??? Eu não tô chorando pra Rê, tô chorando pro secador!

 

E duas crianças conversando? Nada mais genial de se ouvir! Já ouvi conversas assim:

- Fulano, você quer o arrumado ou o quebrado?

 

Ou:

- Você sabia que quando eu for bem grandão eu vou abrir a porta com a chave sozinho?

 

 

 

 

Para terminar, só a última de que me lembrei:

Criançada no zoológico, uniformizada! Têm no máximo 5 anos, e vejo a professora chamar a atenção de todos para um bicho que está “almoçando” bem naquele momento:

- Olha, gente, ele está comendo outro bicho, estão vendo?

Todos horrorizados:

- Ohhh!!! Credo! Olha!!! Nossa!

E um pequenininho, achando a maior maldade, exclama:

- Gente!, esse bicho é um animal…

 

* Aliás, termino indicando uma leitura rápidésima e deliciosa: “Frases do Tomé aos Três Anos”, do Arnaldo Antunes… Não precisa explicar do que se trata, né? Lá estará a sabedoriinha em fragmentos. Pra rir: e aprender!

Fado

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

 

 

                Hoje, se for mesmo o tempo, verás que é o dia. Despertar-te-ás ainda perdido nos sonhos emaranhados, buscarás por inércia meu corpo nu ao teu lado, e ele não estará. Levantar-te-ás, confuso pela ausência erma, te atingindo quase com nitidez. Irás tomar um banho, como gostas, na área de serviço, abrindo só o registro de água fria nos últimos segundos para acordar melhor, aí então sentirás minha falta risonha olhando-te da cozinha a perguntar qualquer besteira e te beijar de longe. Escovarás os dentes, com minha pasta preferida, e, olhando despropositadamente para as paredes do banheiro, lembrar-te-ás de que este mesmo ambiente foi palco para nossos escandalosos amores: nossas cenas repassarão diante de teus olhos.

                Irás ao trabalho. No caminho, no carro, a música será toda cheia de recordação – o CD é o mesmo que me deste de presente: o teu ficou preso no rádio quebrado. Ah, tu te incomodarás com tanto passado invadindo o presente, mas não poderás evitar este pensamento que veio agora: gostarias que te cantassem devagar ao pé do ouvido. Minha voz suave. Sentirás minha mão na tua coxa, gostarias de brincar com ela, melhor: gostarias que eu brincasse contigo depois de resistir com fingida repulsa. Ah, nossas provocações.

                Chegarás ao trabalho invariável. O tempo passará a um custo… mas tu o conduzirás com tamanha frieza e eficácia que esquecerás a maneira como ele passa. A vida, a vida: sabes como ela acontecerá, toda anestesiada. Tu te distrairás, dirás o que esperam que digas (para quê?), agora te sentarás, cansado. Os outros falando sem parar – ah, desejarás encarecidamente ter aprendido outra língua no lugar desta, só para não escuta-los – que é que eles pensam que têm a acrescentar? Quererás um refúgio, algo de leve para te poder aliviar, algo de sereno que te dê alguma riqueza simples no meio de tanto nada rebuscado. Olharás para o telefone, pensarás em mim, já sabes que se ligares eu sequer atenderei. Desejarás minha presença surpresa, morena marcada, de tranças, saudades confusas, sorriso claro, aí o desejo será tanto que arriscarás saíres pela porta para ver se me encontras, se estarei por aí depois de tanto tempo. Mas, em vão: não há alguém eu, só muitos ninguéns à porta te esperando, fazendo perguntas às quais suplicarás ao Deus (em quem nem acreditas!) para que te livre da obrigação tediosa de dar respostas. Porém, tu tens de trabalhar, e o farás, apesar de tanto cinza.

                Irás para casa finalmente, isso quase te alegra, sem tal exagero. Ao menos, tua casa, o silêncio, teu tempo sagrado de reflexão. Deitar-te-ás no sofá, para a solidão agradável – não fosse enxergares minha imagem apoiada em teus joelhos com um ar triste de quem pressente tua partida. Sem sucesso tentarás manter tal imagem diante de ti para torna-la palpável; imaginarás conversas nossas, pensando em perguntas, supondo minhas respostas. Não buscarás nossas fotos, meus textos e bilhetes, minha presença tão viva agora engavetada: tu sentes medo. Fumarás, em reflexão incessante, sentindo minha ausência indissolúvel enfim se firmar, como num susto; fincar-se-á a tristeza afiada dentro de ti. O sufoco.

                Sairás – para a tua família, para o Parque, para quaisquer atividades que te entretenham, contudo já saberás que a dor se alojou em todo teu espaço vazio. Tua família, como às vezes sucede, parecerá falar a ti numa língua alheia, sim,embora dessa vez não o tenhas desejado; todas palavras te incomodarão e farão com que te despeças e vás embora.

                Conversarás ao telefone com o Amigo, tua última esperança concretizada de compreensão generosa. Mas a tristeza não passará: hoje é o dia. Conversarás com a Namorada, sim, e a monotonia do teu amor linear causará mal-estar – a ti e, em conseqüência, a ela – por isso se dirão palavras brutas e se magoarão com o ódio da impaciência e da frustração mútua que seria espantosa se não fosse estravasadamente óbvia. Desligarás, exausto da realidade, querendo mais que nunca dormir.

                Porém, agora é hoje, e este será o inevitável Hoje: tu não conseguirás. No quadro à tua frente estará a velha imagem de um lugar onde estivemos juntos: minha saudade sem solução. No sofá. Na cadeira. Na rede. No corredor. Na cozinha. Por toda casa estou estive estarei: eu andando descalça, procurando os chinelos perdidos em algum canto da casa. Eu cantarolando e sorrindo, com os cabelos molhados que tu repetidamente elogias. Eu vestindo a roupa amassada no chão, irritada por me olhares sem parar. Eu olhando para as máscaras com as quais decoramos tuas paredes. Eu te mordendo a orelha, te abraçando com gosto, te chamando pro quarto. Eu te dizendo trechos de textos que lembram nossa história - Eu, eu, eu incessantemente eu, onipresentemente eu, em todos os cômodos e em todos os momentos, eu discutindo e eu te adorando, eu toda entregue e eu contrária, eu rindo alto e eu chorando, eu extrovertida e eu em silêncio, eu te olhando com fúria e com desapiedada paixão, eu te trazendo pra perto e eu te afastando de mim, eu em todos os meus trejeitos e em todos os mais mínimos detalhes, eu impávida e absolutamente fixada em tudo o que é teu, em tudo o que te rodeia e envolve; completamente eu, alucinadamente eu, irredutivelmente eu eu eu.

 

                Hoje, aos brados, aos prantos, aos gritos, tu suplicarás que eu volte.