Hoje, se for mesmo o tempo, verás que é o dia. Despertar-te-ás ainda perdido nos sonhos emaranhados, buscarás por inércia meu corpo nu ao teu lado, e ele não estará. Levantar-te-ás, confuso pela ausência erma, te atingindo quase com nitidez. Irás tomar um banho, como gostas, na área de serviço, abrindo só o registro de água fria nos últimos segundos para acordar melhor, aí então sentirás minha falta risonha olhando-te da cozinha a perguntar qualquer besteira e te beijar de longe. Escovarás os dentes, com minha pasta preferida, e, olhando despropositadamente para as paredes do banheiro, lembrar-te-ás de que este mesmo ambiente foi palco para nossos escandalosos amores: nossas cenas repassarão diante de teus olhos.
Irás ao trabalho. No caminho, no carro, a música será toda cheia de recordação – o CD é o mesmo que me deste de presente: o teu ficou preso no rádio quebrado. Ah, tu te incomodarás com tanto passado invadindo o presente, mas não poderás evitar este pensamento que veio agora: gostarias que te cantassem devagar ao pé do ouvido. Minha voz suave. Sentirás minha mão na tua coxa, gostarias de brincar com ela, melhor: gostarias que eu brincasse contigo depois de resistir com fingida repulsa. Ah, nossas provocações.
Chegarás ao trabalho invariável. O tempo passará a um custo… mas tu o conduzirás com tamanha frieza e eficácia que esquecerás a maneira como ele passa. A vida, a vida: sabes como ela acontecerá, toda anestesiada. Tu te distrairás, dirás o que esperam que digas (para quê?), agora te sentarás, cansado. Os outros falando sem parar – ah, desejarás encarecidamente ter aprendido outra língua no lugar desta, só para não escuta-los – que é que eles pensam que têm a acrescentar? Quererás um refúgio, algo de leve para te poder aliviar, algo de sereno que te dê alguma riqueza simples no meio de tanto nada rebuscado. Olharás para o telefone, pensarás em mim, já sabes que se ligares eu sequer atenderei. Desejarás minha presença surpresa, morena marcada, de tranças, saudades confusas, sorriso claro, aí o desejo será tanto que arriscarás saíres pela porta para ver se me encontras, se estarei por aí depois de tanto tempo. Mas, em vão: não há alguém eu, só muitos ninguéns à porta te esperando, fazendo perguntas às quais suplicarás ao Deus (em quem nem acreditas!) para que te livre da obrigação tediosa de dar respostas. Porém, tu tens de trabalhar, e o farás, apesar de tanto cinza.
Irás para casa finalmente, isso quase te alegra, sem tal exagero. Ao menos, tua casa, o silêncio, teu tempo sagrado de reflexão. Deitar-te-ás no sofá, para a solidão agradável – não fosse enxergares minha imagem apoiada em teus joelhos com um ar triste de quem pressente tua partida. Sem sucesso tentarás manter tal imagem diante de ti para torna-la palpável; imaginarás conversas nossas, pensando em perguntas, supondo minhas respostas. Não buscarás nossas fotos, meus textos e bilhetes, minha presença tão viva agora engavetada: tu sentes medo. Fumarás, em reflexão incessante, sentindo minha ausência indissolúvel enfim se firmar, como num susto; fincar-se-á a tristeza afiada dentro de ti. O sufoco.
Sairás – para a tua família, para o Parque, para quaisquer atividades que te entretenham, contudo já saberás que a dor se alojou em todo teu espaço vazio. Tua família, como às vezes sucede, parecerá falar a ti numa língua alheia, sim,embora dessa vez não o tenhas desejado; todas palavras te incomodarão e farão com que te despeças e vás embora.
Conversarás ao telefone com o Amigo, tua última esperança concretizada de compreensão generosa. Mas a tristeza não passará: hoje é o dia. Conversarás com a Namorada, sim, e a monotonia do teu amor linear causará mal-estar – a ti e, em conseqüência, a ela – por isso se dirão palavras brutas e se magoarão com o ódio da impaciência e da frustração mútua que seria espantosa se não fosse estravasadamente óbvia. Desligarás, exausto da realidade, querendo mais que nunca dormir.
Porém, agora é hoje, e este será o inevitável Hoje: tu não conseguirás. No quadro à tua frente estará a velha imagem de um lugar onde estivemos juntos: minha saudade sem solução. No sofá. Na cadeira. Na rede. No corredor. Na cozinha. Por toda casa estou estive estarei: eu andando descalça, procurando os chinelos perdidos em algum canto da casa. Eu cantarolando e sorrindo, com os cabelos molhados que tu repetidamente elogias. Eu vestindo a roupa amassada no chão, irritada por me olhares sem parar. Eu olhando para as máscaras com as quais decoramos tuas paredes. Eu te mordendo a orelha, te abraçando com gosto, te chamando pro quarto. Eu te dizendo trechos de textos que lembram nossa história - Eu, eu, eu incessantemente eu, onipresentemente eu, em todos os cômodos e em todos os momentos, eu discutindo e eu te adorando, eu toda entregue e eu contrária, eu rindo alto e eu chorando, eu extrovertida e eu em silêncio, eu te olhando com fúria e com desapiedada paixão, eu te trazendo pra perto e eu te afastando de mim, eu em todos os meus trejeitos e em todos os mais mínimos detalhes, eu impávida e absolutamente fixada em tudo o que é teu, em tudo o que te rodeia e envolve; completamente eu, alucinadamente eu, irredutivelmente eu eu eu.
Hoje, aos brados, aos prantos, aos gritos, tu suplicarás que eu volte.