Arquivos de novembro de 2008

Dos Dizeres

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

 

       Desde todos os tempos, encantou-me ouvir histórias de amor. As verídicas. Quando era adolescente, deixava minhas amigas contarem suas histórias de amores mais de uma vez, só pela imensa alegria em cada uma ao falar…

       (Tenho uma amiga-da-vida-toda com quem isso era de praxe:

       - Joana, agora você quer me contar de novo a história do fulano?

       - Quero! Quero!!!)

       Atravessando a adolescência, as histórias mais se rechearam, cresceram, e abri espaço especial para estas, pelas quais meus ouvidos não cansam: as da primeira vez em que se ouviu “eu te amo”. Tão bonito perguntar para alguém “Qual foi a primeira vez que você ouviu eu-te-amo?” e esperar para ouvir. É audição ingênua. Mansa.

      Constatei que há maior encanto na maneira das pessoas descreverem do que no enredo. As pessoas apaixonadas têm não sei que coisura, não sei que maneira, mais aguda, mais colorida e mais palpitante, de palavrear. Que essa atmosfera invada minha literatura, assim seja, amém!

     Alguns relatos, vividos e imaginados, derramo por aqui: para plantar.

 

     I. 

     Ela e Ele eram namorados há poucos meses, tão orgulhosos de si, amor novinho em folha. E estavam assistindo a um show, de pé; ela à frente, olhar fixado, interesse no pino. Ele veio para perto, dizer, no seu ouvido, coisa nenhuma:

      - xszwpkmhkkkknkswrzkk…

      - Quê???

      - dhsiadjmoptirgh…

      - Quê?

      - Eu te amo!!!

      Ela riu feito criança, mas tão comovida.

 

     II.

     A moça: no mundo da lua. O moço: rindo. Dela.

     Dia desses, ela combinou de passar na casa dele “daqui a pouco”. E, é claro, atrasou-se. Mais que isso: já havia estacionado na porta quando viu que esquecera de ir ao banco.

     Ficou irritada consigo mesma. Mas havia um banco, há poucas quadras. Então, ela deixou o carro ali, e foi a pé, decidida a chamar pelo Moço na volta. Fazer o quê?

     Diante do atraso da namorada, o Moço telefonou, telefonou, mas não obteve resposta (sim, ela esquecera, também, o celular). E agora ele tinha que sair… Fazer o quê? Deixou um recado na caixa-postal dela, e foi para a rua… onde deu de cara com… o carro dela estacionado exatamente na sua porta! Não entendeu coisa nenhuma, rodeou-o, esperou, ficou ressabiado – mas nada; deixou um bilhete no pára-brisa e saiu.

     A Moça retornou logo. Tocou a campainha, sem resposta. Ficou irritada (consigo mesma…) ao ver que esquecera o celular, e irritada com ele, que não estava em casa. Entrou no carro, e antes de dar a partida saiu dele, porque: havia um papel preso ao pára-brisa. Pegou e abriu:

      “EU TE AMO SUA LOUCA”.

     Evaporou-se a irritação.

     III.

     Há aqueles que só conseguem dizer a palavra quando a palavra não funciona mais. Nas separações. Ou após.

     Estes de que conto eram ex-namorados cheios de ciúmes furiosos. Cheios de dificuldades, cheio de possibilidades, cheios de posse, e faltos de jeito. Declarações de sentimento? Quê isso. Ainda assim, mesmo após anos separados, continuavam de certa forma juntos, meio amigos, meio paquerentos (palavra emprestada da contadora!), às vezes ficando, às vezes sozinhos ou acompanhados. E numa certa festa, Ele arrumou nova companhia, às vistas da ex…

      “E daí?”, vocês dirão, “Ex é ex”! Pois tomem tento. Estes, não. Estes brigaram discutiram falaram agrediram xingaram… E acabaram juntos! - outra vez. Demais. 

     Pela manhã, ao se despedir, momento em que sempre havia embaraço entre eles, ela lhe deu um beijo no rosto:

      - Não posso mais ser sua amiga.

     Ele com o olhar muito limpo, um ar triste:

      - Por quê?

      - Porque eu te amo.

      Ele olhando-a.

      - Sempre vou amar. – Ela corajosa.

      Beijou-lhe na boca, suave, disse “Tchau”.

      Deixou-o com seus olhos tristes, já prateados de lágrimas.

      Nunca mais se viram.

     IV.

      - Eu te amo!!! – Ofegou ele sorrindo em quentura, ainda fervendo do calor dela, que era tanto como se o mundo fosse acabar já-já. – Viu?

     Eram um suspiro só, sem senso, sem hora. Cansados, numa euforia suave. Ela, nua, febril, felina. Ele inteiro, capturado. Ela ouvira, e enroscou-se forte, sempre ardil ela era:

      - Dei ou não dei um show de sacanagem??? – e deu uma gargalhada quente e irresistível, por que ele fingiu, ou sentiu, ofensa.

      - Ah..! Que jeito de responder!.. - Soltou-a de leve.

      Ela colocou-se por cima dele com muita pressa:

      - Eu te amo – cochicou, com malícia. E ao olhá-lo, se transformou. – Psiu. Eu te amo… te amo… te amo… te amo… - a cada cochicho, um pequeníssimo beijo, na boca, no queixo, na bochecha, no ombro, no pescoço, na testa dele…

     Quem compreenderia que ela, a amarga, pudesse ir ficando assim, tão doce? 

     Pois ao beijar-lhe os olhos, suspirando “eu te amo”, ela já era muito, muito pura.

     V.

     Diga:

 

 

 

 

 

 

Retratos de Afeto

terça-feira, 25 de novembro de 2008

 

“Tanta saudade preservada

num velho baú de prata

dentro de mim…”

Gilberto Gil, Back in Bahia

 

     Conversando há tempos com minha tia Maída (Novaes, criadora dos Trovadores Urbanos), ela me contou sobre um projeto lindo que vinha idealizando para os Trovadores, baseado em memórias afetivas. Hoje o projeto é nascido, sob forma de palestra, e tem o lindo título de Afinando o Afeto – as músicas das nossas vidas. “A maior conquista que eu tive na minha vida foi o afeto das pessoas pelo nosso trabalho”, ela me disse, brilhando. “Sabe por quê? Porque as serenatas têm causado nas pessoas uma coisa rara… uma comoção…”

      Tão bonita esta consciência!, pensei eu. E pensei no quanto esta é a beleza de ser artista. É tanta gente que vem dizer: “Sua música marcou a minha vida”, e ouvir isto é tão forte que não há resposta possível, nada além do parco “Obrigada”, tão insuficiente, tão insuficiente!  Pois só quem tem a vida marcada por certa canção sabe o quanto ela vale para si.

     Mas é mais que isso o que quero dizer. A música é apenas um ponto comum entre todas as nossas memórias de afeto. Há outros alfinetes de sentimentos - cores, cheiros, rostos, imagens. O que seria uma fotografia de afeto na sua história? Qual momento ou pequeníssimo detalhe diz o que é afeto para você?

     (Pausa para a recordação abrupta! É “O Amor nos Tempos do Cólera”, do García Márquez, que decorei que começa com a seguinte frase:

 “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”.

Comprei-o imediatamente.)

     Para a Maída é o cheiro da pitangueira que atravessa a infância e emociona agora-já. Ou o gosto do chá, que lembra suas tardes quando menina. Algumas fotografias-de-momento hão de causar um sentimento especial em qualquer um, são quase clichês da memória: as luzes do natal, a melancolia dos dias de chuva, a casa da vovó, uma brincadeira de criança, música brasileira ouvida no exterior…

     Para mim vêm outros, próprios, espetando a memória e o coração. Casa na árvore; folha-estrela; pomar; carrinho de algodão-doce; livros da Eva Furnari; discos de vinil; uma boneca de cabelo de lã azul; minha avó me deixando ajudar no bolo de chocolate. Chocolate com nozes. Roda de choro. O barulho do inalador. Cheiro de eucalipto. A primeira ou uma das primeiras vezes que cantei num bar, e alguém na platéia exclamou: “Além de cantar bem, canta que é uma beleza!” Sorrio. Outras frases. Bilhetes.

     Ou: a primeira vez que se ouve “eu te amo”. Já escrevi um texto todo apenas sobre isso. Recolhi histórias, inventei outras, e entretanto, mais do que os relatos, o que me afetava mais era ver com que maravilhamento as pessoas apaixonadas contavam seus amores…

     (Eu tive um namorado, um grandessíssimo amor, que, de vez em quando, só parava, olhava pra mim e dizia: “Tu é tudo isso mesmo!..” )

                                                                                                                 

     Pois pendurem aqui seus retratos de afeto ao som de suas canções.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Saudade…

domingo, 23 de novembro de 2008

               

                 Porque esse mês meu avô (que se foi há um ano) faria 80 anos, e minha avó Margarida fez 75, felizmente esbanjando sua saúde de flor.

 

 

               

                2 de novembro de 2007, acordando.

 

                Saudades do meu avô.

                Saudades dessas que não se mata, porque meu avô é que já morreu.

                (Mesmo que se fale com ele, não é possível vê-lo, jamais).

                Sua risada engraçadinha, seu jeito de chorar fazendo careta, só em sonho.

                Não faz diferença no agora-já, porque longe - porque posso pensar que quando for visita-lo tudo estará como antes - mas faz diferença só de supor, só de saber: a enorme casa vazia, os quartos mudados, a falta do riso, da teimosia habitual, e os quadros mudos, pesados de saudades. O silêncio gritante no lugar da canção, e um abraço a menos que cada visita vai dar. As fotos envelhecendo na parede, amarelas, de medo, de sumir.

                Mas faz diferença sobretudo na vovó, tão sem ter de quem cuidar, e quase não sorrir, tão linda limpando a lágrima por debaixo dos óculos toda vez que diz “O Paulo…”

                Pois faz diferença sim para todos nós, que não temos por onde consola-la, e porque, porque nem nós saramos!.. E é insustentável pensar que, de madrugada, no corredor, não se ouvirá mais o ronco combinado do vovô com o da vovó, que nunca acordam com nosso barulho e assim todos os netos conversam e riem à vontade na cozinha depois da balada.

                Não tem mais riso, não tem mais vontade; só tem madrugada.

                E a gente parece que nunca mais vai querer sair…

 

                A gente vê que está ficando velho quando vai deixando de ter avô.

 

               

 

 

 

 

 

 

 

 

De peso e leveza

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(Ou: os opostos se atraem… Mas só com esforço se agüentam.)

 

 

O sol me acorda:

Tão cedo!

E ele chegando tão tarde…

Vem e suga meu sono –

Eu, que adoro dormir.

 

Manhã:

Pra mim é festa!:

Rio

Canto

E ele detesta –

Eu, que sou do sorrir e cantar.

Diz

que eu rio demais.

 

Aliás

Diz suas verdades:

São nuas e cruas

(Eu, mais nua ainda!)

Há as feias,

As lindas,

As boas

E as más.

 

Nele, sinais

São só sinais.

Favor não comê-los como promessas.

 

Ele fala demais.

Eu ouço

Reclamo?
Não; fico interessada.

E, quando o papo acaba,

Ele fuma.

 

  eu falo…

Declamo outras frases

de autores que amo.

Ele não entende  p o r r a   n e n h u m a .

 

Tenho fome

Ele tem sede

Quero sono

Ele quer sexo

Sou da manhã

Ele espera a noite.

Somos tortos

Fortes

E fora do tom.

 

Cada um tem sua música -

E nem

na pausa

se ouve

o mesmo

som

(!)

 

Ele é o oposto

do cortejo que eu exijo

- O oposto! -

É o avesso do que eu acho bom.

 

 

E, sabe?,

É bom…

 

 

 

 

Pela estrada afora nós vamos!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

 

Queridos, estamos indo a Curitiba fazer três shows… Por estar fora nos próximos dias, deixo aqui um texto escrito após um show, no ano passado, que foi muito especial, como vocês podem ver… Beijo!

     

 

 

 

 

PÓS-SHOW

(Relato de intérprete após o palco)

 

                Aconteceu uma mágica ali. Entre banda e público; uma coisa que não tem nome, que ilumina e consola. Aconteceu: um furor.

                A solidão minha, que tanto doía, evaporou cor de rosa choque, da cor da fita nas minhas costas e do batom, que eu jamais usaria na vida real. Mas ali, ali, era a vida mágica – nem “vida” era. E todas aquelas pessoas desconhecidas ou conhecidas ao redor, elas eram as minhas namoradas, meus profundos amores, por quem eu podia e devia ser leve, linda, intensa, quente e forte, e machucada, e machucadora. Ali era a solidão para sempre impossível. Ali era a possibilidade aliviada de eu ser eu mesma, o mais espontânea e verdadeira possível, totalmente aberta, por muito tempo seguido – mais de uma hora! – e transmitindo uma energia contínua, inesgotável, e de uma fonte… sensível. Minha energia não era uma fortaleza, mas algo muito mais humano e mais frágil. Eu poderia fazer sofrer a todas essas pessoas que me olhavam, e elas poderiam me fazer sofrer, mas sabíamos que não o faríamos!, por razão alguma! – como no amor.

                Então a alma de todos ficava suspensa, como a nossa de cada um da banda, numa excitação que pousava no ar, acesa. Acabou-se o mal qualquer que antes do palco me perturbava; gastei-o ao cantar. E não veio tampouco o punhado de mal que poderia vir do olhar guloso de tanta gente por cima. Esgotou-se a tristeza e a minha solidão, evaporou-se isso tudo na quentura rosa e amarela do ar. Era atmosfera mágica que só se cria sem saber.

                E findou o espetáculo ao som de agradecimentos e suspiros – meus mais! – porque, porque aquela energia toda, como negá-lo?, tinha seu centro em mim.

Como eu podia ser centro de algo tão lindo e engrandecedor sendo eu própria tão vulnerável e fraca? Era… mágica.

 

                E sentei-me no camarim sentindo o encanto emocionado, suspirando de amor, serena, sem compreender.

Eu indico!

sábado, 8 de novembro de 2008

Muchachos y muchachas,

 

Hoje aquí em Sampa tem show de uma banda de amigos muito queridos que me fazem cantar, dançar e pular até não poder!

Convido-os a conhecerem a… Trupe Chá de Boldo! (Cliquem! Ouçam!)

Para criar e matar qualquer ressaca! De frevo e marchinha até rock n’roll, cabe tudo.

(Quem viu os clipes que fiz para o Música de Bolso, há de se lembrar dos meus acompanhantes na loja de fantasias tocando um frevo! Adivinha de onde foram convocados?)

 

E aliás agora mesmo ri e senti saudades enormes ao encontrar aqui fotos do meu aniversário de 21 anos, em que houve a Festa da Uva, tendo a Trupe Chá de Boldo como única e principal atração da noite. Os convidados todos foram vestidos de roxo, vinho ou verde (cores da uva!) e a decoração foram pequenos papeizinhos por todo canto com provérbios (ex: na mesa de comidas, “A fome é má conselheira”, no chão, “se cair, do chão não passa”, no sofá, “Deus não dorme”… (Ainda vou escrever um post aqui só sobre provérbios e ditos populares, sou fã fã fã!)

Ó procês verem…

 

Enfim… Hoje é sábado! Tomem baile!!! Quem pode, pode, quem não pode, se sacode!

Diário

terça-feira, 4 de novembro de 2008

“Às vezes permaneciam em silêncio até o anoitecer, um defronte do outro,

 olhando-se nos olhos, amando-se no sossego

com tanto amor como antes se amaram no escândalo”.

García Márquez, Cem Anos de Solidão

  

             Era noite. Os amantes saudosos haviam se deitado há pouco na cama: ela, trazendo ainda certas mágoas indigestas; ele percebendo, tentando consolá-la com palavras e carícias. Aliviava-lhe a saudade sufocada demonstrando que sentira a falta dela também.

          Por cima de tudo, havia alegria nos modos da Moça: enroscava-se nele com um abraço, assim ouvia-lhe melhor a respiração e sentia-lhe o cheiro, e sorria escondendo seu rosto no dele. Apesar dessa ternura, o Moço adivinhava no olhar dela qualquer angústia reprimida, queria ouvir tal angústia em palavras; pedia, perguntava.

A Moça, só silenciava.            

    (Muitas vezes a Moça silenciava diante dele. Uma palavra qualquer que dissesse poderia fazer sua paixão desabar sobre ela, com todos os seus anseios e ciúmes – tudo o que ela tinha a dizer constituía uma entrega descontrolada e febril, que podia fazer com que tudo se perdesse. Uma palavra, e tudo se acabaria.)

 

O Moço. Ela não queria a desavença, por isso dizia palavras de carinho – declarações, bonitezas, bem-quereres. (O Moço era uma pessoa muito especial que aparecera na vida dela muito despreparadamente; tinha olhos verde-azuis, sorriso de moleque e espontaneidade encantadora. Seus beijos à toa no pescoço dela eram o delírio). Foi num momento de silêncio posterior às brincadeiras específicas dos amantes que ele sussurrou-lhe, com certa insegurança, aquela pergunta singular: “Você gosta de mim?”.

A resposta tão logo não veio, não porque a Moça hesitasse, e sim pela surpresa que a pergunta lhe causava – então ele não sabia? Seria possível que tal sentimento não estivesse todo-inteirinho à flor da pele?

            Muito Menina, ela beijou-lhe o rosto com pureza, e respondeu o que parecia evidente: “muito, muito, muito!”. (E isso, mais que uma repetição de palavras, era um pouco da entrega contida no seu silêncio).

             Passaram algumas tantas horas da madrugada assim, sem muito palavreado nem alguma malícia de corpo,                          

             E mesmo, dormiram assim, muito envolvidos neles mesmos, e despertaram-se entre beijos e carícias distraídas quando já fazia sol; a reconciliação aí era completa. E acesa.

              : Era dia! Levantaram-se da cama para irem se banhar juntos, e no entanto em pouco tempo estavam retornando a ela, ardendo, encharcados do banho interrompido por suas delícias; ali mais brincaram; ali deleitaram-se; ali se cansaram e suspiraram seu sossego.  

                  Agora era mais dia.

            

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em sábado pós-show, até o sol teima em preguiça…

sábado, 1 de novembro de 2008

Ao maestro com carinho!

E a vocês por terem vindo!..