
(Ou: Por Que Todo Mundo Quer Ser Artista?)
Caro artista que não é: olhe: saiba: saque: veja: há uma arte toda em só observar sem agir.
Bendita a platéia, esta multidão escura e encantadora, que se desconhece e se encontra, a si mesma, na escuridão anônima, cheia de realidade.
No palco, o faz-de-conta. Luz linda que é só para ser vista. E saboreada!..
O motor do espetáculo de realeza e mentira é a platéia sincera.
Platéia que olha e sabe e saca e vê se o do palco é tesouro ou pretensa beleza, se é luz verdadeira ou impostora.
Bendita a platéia que arranca do artista a magia e a humanidade, esta última uma coisa tão íntima-ínfima-minúscula que há de ser de diamante pra não se estilhaçar.
Bendita a platéia que não aquece a voz não tem insônia não se apavora com uma possível gripe não responde às mesmas perguntas nas entrevistas não tem a responsabilidade de conduzir cada minuto de espetáculo não se resguarda não se aflige não se prepara não se entrega fácil.
Bendita a platéia, que não está em perigo!
O artista não quer se fazer! Ele é.
O admirador não quer se tornar! Ele vê.
Há arte de verdade em qualquer função que com arte se cumpra.
Há a arte de olhar.
Portanto, seja mais, muito mais autocrítico, rígido, autêntico: não seja o pseudo-artista, sem coisa nenhuma na essência. A platéia lhe será crítica, rígida e autêntica - e com ela não se brinca - nesse jogo ela é o Rei.
Arte é nas entranhas.
Caro artista que não é:
VÁ CANTAR EM OUTRA FREGUESIA