30 de jun - ter

Bandeira

Segredo

Enorme

Que trago

Sem pé nem cabeça

De bico fechado

No fundo do peito

No frio da barriga

Na palma da mão.

 

Segredo sem nome

Que guardo

Na ponta da língua

Na água da boca

Na boca do estômago

E na pulsação.

 

Segredo

Que amarro presente:

Na fome do corpo

No fogo de dentro

Na febre recente

No canto do olho

Na cara

Na testa

No tato

E no resto!

 

Segredo que agarro!

Com unhas de fome

Com fúria

Com fama

Com o cabelo em pé!

Segredo engraçado…

Que sobe no salto

E salta, mortal!

Segredo

Tão cara-de-pau…

 

Que é bom, que é mau:

Arrepia a nuca

Dói o cotovelo

Coça ao pé do ouvido

Pula atrás da orelha

Cochicha, fingido,

Bendito segredo!

Que se economiza

Mas gosta

Se gasta

Se infesta

Se enfeita

E não termina nunca.

Estala no peito

Estrala nos dedos

Escapa das mãos!

 

Segredo

Que trago.

E assopro.

Que me saboreia

E se deixa provar.

 

Segredo

Que, já-já, eu grito!

- Segredo em perigo!!!

Amarro-o mais forte

Ele se sacode

Querendo cantar.

Segredo

Tão ruim de guardar…

 

Brinquedo

De desembrulhar

Que entrego

Sem me envergonhar

Segredo

Que quer se contar…

26 de jun - sex

Salve Michael Jackson!

                Não ia escrever hoje mas não teve jeito.

 

               

                Telefonei pro meu irmão em meio ao trânsito típico da sexta-feira com chuva. Ele atendeu cantando:

                - Like a comet blazing ‘cross the evening sky… Gone too soon…

- Ah, mano, fiquei sabendo no meio do aquecimento pro show ontem! O rei do pop morreu!..

                Não era mera menção à morte de um ícone: era o desabafo dos manos que desde muito pequenos, mas muito pequenos mesmo, amavam a música de Michael Jackson. Os clipes, o jeito de dançar, a voz, as músicas, as letras que quando pequenos inventávamos enrolando a língua e falando qualquer bobagem. E as calorosas discussões defendendo nosso herói desde que começaram os escândalos sobre a vida dele.

 

                - Eu acordei, li o jornal, fui tomar banho e fiquei chorando que nem um idiota!

                - Jura??? Nossa, eu nem chorei!

                - O quê? Você está louca!!!

                - Ah, ele estava tristonho já, coitadinho… Deixa ele morrer.

                - Ah, você vai ver quando ler as notícias sobre ele…

                - Eu, não, não vou chorar.

                - Insensível!

                - Depois te ligo, mala!

                - Beijo-tchau.

               

                Segui com meus compromissos matinais como se nada tivesse acontecido, até que me deparei com a manchete de jornal colorindo meu olhar indiferente por cima do sofá. Sentei pra ler rapidamente, já com a alfinetada no peito.

                Só li um parágrafo e tive que parar. Mandei a mensagem de texto para o senhor De Botas, que é a expressão babaca pela qual chamo e sou chamada pelo meu irmão (não vamos parar pra contar historietas de infância!):

 

                “Abri o jornal e chorei! Bastantão. Você venceu, De Botas.”

 

                Não demorou dois minutos a resposta:

                “Tô falando, porra. Ele te ensinou tudo. Gone Too Soon.”

 

                - Alô.

                - De Botas?

                - Oi, mano.

                - Compra a Folha pra gente ler lá o que saiu do Michael!

                - Tá bom, tô saindo de uma reunião e compro aqui!!!

 

                - Alô!

                - Não comprei a Folha mas comprei a Istoé Gente que é a revista inteirinha sobre ele!

                - Puta que o pariu, eu também comprei… Vem pra casa que eu tô tocando violão.

 

                Caiu a ficha! Morreu o rei do pop, nosso ídolo imortal!!! Liguei a rádio e fiquei revoltada que não estivessem todas as estações sintonizadas no rei. Mesmo as de música só brasileira! Enfim, cheguei em casa. Afinamos o violão e o gogó, e fizemos muitos duetos, de Heal The World a Billie Jean. Estou considerando furar a balada pra ficar em casa assistindo DVDs do grande. Melhor razão pra furar balada não há.

22 de jun - seg

O Conto da Ordem do Disco!

Como se decide a ordem das músicas de um disco? Não sei como se decide, sei como eu decidi! Após ouvir duas mil vezes, escrevi um roteiro-de-filme, ou sei lá, um conto, botando sentido e fio da meada no meu Feriado. Guardei o e-mail que enviei pra minha equipe comunicando que já tinha decidido a ordem e enfim coloco-o aqui!

(Desculpem a intérprete pelos palavrões, mas meus palavrões escolho eu! Esse texto vai pro brog quando o cd sair…)

1. Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor

2. Feriado Pessoal

3. Gargalhadas

4. Caminho Pro Interior

5. Fim de Tarde

6. Gatas Extraordinárias

7. Nascer de Novo

8. Em Paz

9. Um Momento

10. Alquimia

11. Amor Escondido

12. Cuide-se Bem

             Era uma vez essa menina que queria falar sobre o amor. Ela subiu ao palco para contar tudo o que já aprendeu e o que quer aprender. Leve, livre, doce, cálida, ela veio afobada como de costume, dizendo: o amor é lindo!
             Acontece que o primeiro grande amor é o amor à alegria, e antes de falar da paixão ela diz: amor encostado enchendo seu saco é engano! Assim, ela pega o último ex e dá um definitivo chute na bunda dele, e sai à rua, cantando, assoviando, amando-se a sim mesma, o tempo que cuide do resto! Solta uma gargalhada, arruma as malas, acha um caminho seu e vai viajar! Esse caminho de fora é um caminho por dentro, é lavar a alma e parar a chuva.
             Ao voltar, alívios!, o trânsito é mais colorido, da cor da esperança de que, no trânsito, no cinza, na sujeira, na bagunça, o grande amor pode estar em qualquer lugar. Vai acontecer!!!
             Um belo dia, ou, uma bela noite, ela vai à procura, e, ui! O amor pega de jeito, acerta em cheio seu coração aberto. Ela vai lá fica com ele dá pra ele e aí que fodeu mesmo, fica certa de que é o grande amor da sua vida, nem sabe onde está, não vê onde pisa, nasce de novo. Acorda e fala assim: queria fazer parte da sua vida, não só dessa noite! (Queria ser navegador nesse teu mundo estelar…) Me leva?
             Ele leva. Ê coisa boa!

             O relacionamento vai à vida real, e tem o problema de todo relacionamento intensíssimo: de tão forte, é insuportável. Apaixonados que querem se matar um ao outro de quando em quando.
             Até que um dia ela cansa! Quem diria??? Lá vem ele batendo na porta às três da manhã bebaço chorando e ela mais triste ainda mas mais puta ainda manda ele ir com Deus que aqui ele não tem mais lugar não senhor!!! Mas quem se dá o trabalho de gritar tudo isso de madrugada é porque está sofrendo e se importando de dar dó.
             E eis que, em breve… Surge um novo amor! Desses que enchem de orgulho e mais ainda de medo! Já não sofreu demais, não? Não. Ah é preciso manter em segredo cada amor novo em folha porque a zica é grande a inveja está por trás pela frente por cima e por baixo de cada parede cada porta cada janela do meu Brasil. Mas, é um amor tão grande, tão forte, tão vibrante, ele virá à tona sozinho! E vai começar tudo de novo!
             E a menina, inconstante como sempre, pura e apaixonada pela centésima vez, vai viver seu centésimo amor e só tem a dizer: bom é isso mesmo! Aliás, você, respeitável público, cuide da vossa pureza, dessa bobagem de se dar à toa e se enganar e se apaixonar demais. Isso é saúde! Bom humor! Boa vontade! Cuide do seu frescor. “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”, diria nosso grande querido João Guimarães Rosa. E dá pra ouvir a história inteira de novo, do começo ao fim. Porque, fim, não tem.

             Amém.

 

 

 

18 de jun - qui

Fim de Tarde

               Atendendo a pedidos, eis a letra da música do disco novo que está tocando na rádio! É uma música dos meus tios, Juca Novaes e Eduardo Santhana, integrantes dos Trovadores Urbanos. Minha mãe foi quem a descobriu, cantou e me apresentou  –  a canção mal me viu, já piscou pra minha voz, paquerando, e eu me apaixonei imediatamente! Adoro essa idéia da pessoa que está no trânsito cantarolando indo encontrar o seu amor, e a cada farol aproveita um pouquinho pra sonhar acordada, só despertando ao lembrar que já já chegará!!! (Ao lugar onde graciosamente fingirá estar fazendo qualquer bobagem enquanto guarda o lugar pra companhia querida que ainda está presa no trânsito… Ê cidade grande!)

 

Eu só desperto quando acende o farol -

Vai acontecer!

No fim de tarde, na viagem do sol

Hora de te ver

Nas avenidas uma constelação

Sonho e poder

Luzes chamando pelo meu coração

E ele por você

 

Preciso te encontrar

De qualquer jeito

Preciso te guardar

Dentro de mim

 

Luzes e flashes de neón e cristal

Todo o meu prazer

Hora do rush, noite na capital

Como deve ser?

Nessa cidade, tanto bem, tanto mal,

Tanta coisa no meu coração

 

Na mesma hora, mesmo batlocal

Vou te esperar

Na mesma mesa finjo ler um jornal

Guardo seu lugar

Na longa noite, nosso ponto final

Fogo pra queimar nossa paixão…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15 de jun - seg

Aliados de Ouro Pra noites Sem Troco!

 

 

 

 

 

                Grande enorme sábado à noite!!! O frio e o cansaço já haviam me recluído por um dia e meio, e por mais que a temperatura seguisse baixando desenfreada, eu precisava sair. Eu e minha ansiedade adolescente pegávamos um disco novo da caixa e abríamos a cada uma hora, namorando o trampo recém-nascido. Onde vou? Onde vou? Onde vou? Na casa do Pedro, pronto, amigo é pra essas coisas - pros dias em que quase ninguém ligou.
               Fui, mas o Pedro não atendeu; deixei o disco na portaria com o típico bilhete roxo e peguei o carro de novo. Tinha combinado de encontrar um ex-namorado nesse resquício de doze de junho, mas brotou preguiça de recaídas: o que eu queria mesmo era rir à toa noite adentro!, se atar à toa pra quê? Liguei pro Vini (Calderoni, compositor).

- Tô na vila bebendo com a Bel! Vem pra cá!

Fui!

Papo vai, papo vem; vinho, ainda bem; vou pegar meu celular e…

                - Gente, cadê minha bolsa???

                Pois é: a bolsa sumiu. O velho golpe do opa-esbarrei-na-sua-mesa, ou o velho vacilo do vou-deixar-aqui-pendurada-rapidinho-atrás-de-mim. Carteira, celular, a bolsa linda, tudo foi-se num minuto.

                - Tinha muita coisa dentro?

- Não… Ai, ainda bem que deixei a chave aqui em cima da mesa!.. E a agenda em casa! Ai… – Já choramingava -, mas por que aconteceu isso??? Que saco, não queria que tivessem me roubado…

A lágrima frouxa caiu por sobre o casaco do Vini, que se adiantou pra amparar a chorona. A Bel, maternal, já telefonava para todos os números úteis possíveis, cancelando cartões e linhas.

- Ahhh, não fica triste! Senta aqui, vai!

Vendo a teimosia da minha tristeza, tiveram uma idéia: graciosamente pegaram meu disco que gargalhava por cima da mesa, abriram o encarte e sem contar até três começaram uma serenata pra mim, cantando a curandeira Gargalhadas:

“Pra quê buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida?”..

                Não dava mais pra chorar! Ri e cantei com eles. Dei os últimos goles do vinho que já não ia pagar.

                - Bruninha, decidimos! Seu aniversário tá chegando, eu vou te dar uma carteira e o Vini vai te dar uma bolsa!!!

                - E vamos no Poupa-tempo com você!!!

                - Aliás, já sei! Vamos daqui comer um lanchão da madrugada??? A gente paga!

                Santa generosidade!

                - Oba! Nem posso me opôr, não tenho um tostão e não quero ir sozinha no Poupa-tempo!

                Muitas batatas fritas depois, lembrei-os: meu celular já estava detonado, a bolsa rasgada por dentro, a agenda do celular já preventivamente anotada a mão, a carteira, velha, o pen drive, vazio…

                - Gente, e o melhor é que tenho no bolso dez reais que peguei pra tomar quentão na quermesse!!! Na carteira tinha vinte centavos!

                - Tá vendo??? Santo quentão!!!

                Três da manhã, quando fui dormir zonza, meio de tanto beber, meio de tanto comer, até rezei agradecendo a noite inóspita com os manos! Não mencionei o roubo, não para resmungar de menos e saudar de mais, e sim porque simplesmente já havia me esquecido completamente do episódio traumático. Minha ansiedade adolescente só queria sossego e a lembrança das Gargalhadas!

                Amigo é pra essas roubadas!

 

 (E não pendurem suas bolsas atrás da cadeira no bar!)

 

 

 

 

 

 

 

 

11 de jun - qui

Estréia

* Dia 17 disco nas lojas!!!

C A N T A R :

Só pra cair em si e sair menos só

Só pra ver que dá pé - fazer fé no gogó

Pra gritar essa luz e calar os revés

Pra amar, fazer jus, sem poréns, sem atés,

Só cantar: pra sofrer, pra parar, pra acordar, pra acudir,

pra doer, pra doar, pra sangrar, pra seguir,

pra sarar - pra vocês, e pra nós.

Pra ter vez, pra ter paz, pra ter cor, pra ter giz,

Ter pincéis, ter cartaz, ter contorno e verniz,

Ser voraz, ser veloz, ser atroz, ser atriz:

Ter o céu

Rente à voz

Pra despertar

O bis.

Cantar é

Atar nós

E desatar, feliz.

6 de jun - sáb

Preparação

Música clássica

Mel

Eucalipto

Gengibre

Limão

Água

Inalação

Voz à disposição

 

Luva

Cachecol

Cobertor

Chá, xarope, hortelã

Hoje, só amanhã!..

 

Ensaio

Ensaio

Ensaio

Ensaio à exaustão.

Silêncio - econômico:

Calar

Pra poder gastar: 

No talo

No dia 

E no ponto.

 

Fonoterapia

Massoterapia

Homeopatia

O t o r r i n o l a r i n g o l o g i a

Musicoterapia

E balé.

Caminhadas a pé.

 

Vitamina C

Vitamina D

Cálcio

Ferro

Fibra

Febre

Fósforo

E água, muito mais água ainda!

 

Festas perdidas

Baladas adiadas

Noites bem dormidas

Sábados furados

Convites vencidos -

Os mais fiéis amigos

Já se compadecem…

 

Ah, tempo sensível!

De zelo e de prece.

Resguardo invisível

Da voz infalível

Que vinga!, e agradece.

 

 

2 de jun - ter

Água

“Quieto, muito quieto é que a gente chama o amor - 

Como em quieto as coisas chamam a gente.”

J G Rosa

 

 

Eu finjo que não sei que ele é meu.

Ele, finge que não é.

 

Eu finjo que não preciso - e muito! -

De notícias todo dia

Do punhado de poesia

Que ele empresta no livro

Que desperta pra mim.

Ou da esperta chamada

Que desmancha meu sono:

- Oi oi. Tudo bem?

Ligação perfumada!

Pergunta ajeitada

Deixando acender:

- Agora, tudo bem!..

 

Ele faz que não quer

Me ligar outra vez

desde que desligou…

Finge mal, sem porquês:

Faz pingar suas mensagens: 

Estrelas, buquês

Feito luzes pequenas

Que acenam na noite.

Recolho-as, desperta.

Não durmo, na oferta.

 

Eu faço que não,

não é ele

A razão fosforescente

Da insônia crescente

Que me abrasa os breus.

Ele faz que não sabia

Nem sentia orgulho

Dos fogaréus meus…

 

Ele finge, sim

Que há de escapulir! -

Que há de distrair

Meu aproximar.

Finjo, mais ainda,

que não é meu plano

Que o que quer que eu faça

Faça ele voltar.

 

 

Mais que isso, faço

que não faço a Deus

O  lilás pedido:

- Deixa ele comigo???

Olhe: Deus adia

Faz que nem ouviu

Mas, por ser sutil,

traz resposta fina:

Lança purpurinas

Entre o moço e eu!

Ah!, que o moço é meu…

 

E este amor tão muito

Lá requer barulho?

Qual: não requer nada!

Enriquece mudo

Sem gritar sua fé.

 

Esse amor no mundo

Manda - e eu, mergulho

Faço que é à toa

O moço, que é até:.

 

Mas já sabe: é fundo!

E eu sei que dá pé.

27 de mai - qua

Tá chegando!!!

                Ah, meus queridos, já tá chegando!

                Viva a rotina árdua de ensaio, ensaio, ensaio, insônia e ensaio!

                O show novo terá direção da Cris Ferri, que é atriz e muito me está fazendo suar pra dar o melhor e o maior a cada canção! Sorte minha, e de vocês também, que vão ver não um showzinho de música, mas um espetáculo!!!

                Meu coração já quer pular pra fora e minha banda querida, forte e afiadíssima já quer botar o pé pra fora e correr estrada espalhando o feriado para o pessoal!!!

                Espero chegar a vocês com toda a alegria e o furor que está nos contagiando na preparação! Mesmo porque, o mote do disco, do show, do repertório, do tudo, é a alegria!

                Um bocado dela pra vocês, e até lá!!!

 

Informações que aí arriba estão muito mixurucas de pequeninas:

Pré-lançamento do FERIADO PESSOAL

10 de junho de 2009, 21h

Teatro das Artes - Shopping Eldorado – 3ºpiso
Telefone(s): 4003-2330 - 3034-0075 – ingressos JÁ À VENDA!

Promoção: até o dia 30 de maio, os ingressos poderão ser adquiridos por R$ 25,00. Após esta data o valor será de R$ 40,00.

 

 

24 de mai - dom

Encruzilhada

“Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele,
a pensar nelas a sério,

primeiro as imediatas,

depois as prováveis,

depois as possíveis,

depois as imagináveis,
não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar”.

José Saramago

                De cada lado da esquina cada um tornou à sua vida, que tinha entortado um dedinho para esse encontro suave. Não se deram um beijo, como era sempre a possibilidade, hoje, não, pois quando um não quer, dois não fazem; assim sendo, só se olharam mais uma vez e viraram-se as costas.

                Ele foi com sua certeza reta - foi convicto tomar o táxi, nem notou que as mãos iam fechadas, segurando a vida em linha, tentando assegurar, mas ela ia que ia se emaranhando toda, deixando sua certeza cada vez mais torta. Na memória, a esquina ia ficando reta, já vazia. O rumo, senhor?  Tanto faz, responderia ele. Qualquer rumo era só uma estrada sem chão. Só um destino firme vindo direto à cabeça e à voz, Deixe-me na esquina aqui em frente cinco minutos atrás, por favor.

                Ela foi com o beijo negado na ponta da língua, doendo sem pena, a lágrima limpa prateando o canto do olho direito. Ele não a queria?, então tinha se enganado durante todo o tempo durante toda a tarde a noite e até ali, na esquina torta onde o beijo quente esfriava desperdiçado. O que fora aquilo há cinco minutos?, e por quê? Só o caminho pra casa era reto e ela se agarrava a ele, Meu carro está parado ali: ufa, uma certeza!.

                Mas: todo senão toda máscara todo esconderijo toda separação era falha no encontro destes dois, que acontecia assim: mesmo sem acontecer. Fossem cada um pro seu caminho, e ainda assim, lá na ponta estavam ambos atados pelo fio do pensamento. Pelos olhos. Pelas mãos.

                A ponta do caminho por que a gente vai se chama destino. A mesma palavra se usa pra dizer que bem que a gente tentou, mas não deu pra acontecer de outro jeito.

                O errado ficava certo; a cautela era, no fundo, ousadia; um passo para trás era muito mais ainda dois para frente; a rejeição fora só desespero de tanta entrega. A esquiva era a real confissão.

                Por isso ficou cada um de um lado da rua, pensando no outro, prevendo ásperas dores e delícias, segurando suas linhas sem sentido nas palmas das mãos, sem saber nem pra qual lado andar sem os preciosos passos parceiros do outro, sem saber por quais lados se perder de maneira a garantir que não mais se encontrassem, e, sobretudo, que não mais tivessem que se separar…