Carnaval está na boca do gol, e eu comemorando já!!!
Como manda o figurino, caí no bloco do Ó do Borogodó, bebi, cantei, pulei, suei, tomei chuva na cuca, me fantasiei, cansei, comi, bobeei - agora vou desmaiar de mala aberta e tudo! Isso que o vôo em que parto amanhã pra minha segunda terra sai às 9h da manhã!
Ah, e minha segunda terra é o Recife, com seu calor escaldante, suas cores e sua música! - pela qual eu me esfarelo! (Quando comemoramos 100 anos de frevo o slogan era: É de perder o chinelo!) A paixão que sinto ao cair no frevo e ao seguir o bloco morro-acima e morro-abaixo só pode se comparar ao prazer que sinto fazendo música. Que orgulho estar no meio daquela confusão!!! Que orgulho por ser brasileira, e cantar, e dançar, e rodopiar no meio da multidão se sentindo tão à vontade!!!
Vou para o Recife e quando voltar, eu conto!!! A saudade já me puxa pelo braço. Uma mala de roupas, outra de fantasias! Sorriso na cara e uma medida de ânimo igual à medida do conhecimento de que ele vai virar cansaço. E com o maior prazer!!! Amo fevereiro, amo o carnaval e amo essa tradição (uma das poucas) que temos por aqui! Tradição é pra ser honrada. Bom desfile para os que vão pra avenida, que esse ano não vou! Mas: vou na Noite dos Tambores Silenciosos. Divirtam-se ao redor da Brazuca e do mundo, vocês merecem!!! Libertem-se! Feliz carnaval!!!
Quando eu tinha uns 15 anos, li Furacão Elis. Engraçado: eu não conhecia a música desta cantora-mãe brasileira – me deu na telha, li a biografia. E conhecer, de um só golpe, vida e obra de Elis Regina… Isso teve um resultado tão incrível e intenso na minha formação de cantora que nunca parei de me (re)formar.
Foi por causa de Elis, sua versatilidade, sua intenção, sua articulação, sua força, sua intensidade, que acendeu-se uma luz na minha alma e no meu gogó: uma cantora, pra ser de verdade, tinha que atuar. Eu tinha que atuar.
Esta descoberta enorme guiou meus gostos na adolescência – e amei menos vozes perfeitinhas e mais vozes roucas e interpretações poderosas. Mais Maria Bethânia, menos Gal, mais Marisa Monte lá no primeiro disco - com seus grunhidos, falas e miados, - e mais ainda Cássia Eller. Para além das linhas brazucas, Billie Holiday, Ella, Edith Piaf (que me fazia chorar sem entender uma palavra), Judy Garland (Cantatrizíssima), Liza Minelli (filha de peixa, peixona é), e ainda, Amy Winehouse, Norah Jones (tímida-charmosa), Camille (que tem voz cristalina – mas berra).
E então, com tantas influências me inspirando cores e texturas, pouco a pouco eu soube: pra atuar e cantar, eu precisava de uma direção. Meu primeiro diretor foi o Pedro Altman: o primeiro roteiro que escrevemos gastou apenas vinte minutos do nosso tempo, e o show melhorou pra sempre.
O que faz diferença é indiscutível. Não tinha jeito! Quando saiu Feriado Pessoal, meu desejo de atuar andou no pino. Com o CD em mãos, pensei: Quem vou chamar pra mandar em mim desta vez???
Então me lembrei de uma certa figura, interessantíssima, que conheci após fazer um show piano-e-voz. Uma professora e diretora de teatro, que me assistiu e disse coisas impressionantes (e comoventes) sobre minha atuação. Impressionou-se e me impressionou. Cris Ferri. Não tinha mais falado com ela. Mas arrumei o número, deixei recado:
- Cris, aqui é Bruna Caram e estou ligando porque penso em te chamar pra dirigir meu novo show!
E, surpresa!!! Esta Cris havia assistido, quando moça, à direção de nada mais nada menos que: o Falso Brilhante!!! O mais importante espetáculo da carreira de Elis Regina!!! Ela tinha tido a oportunidade de ver e apanhar cada grão da direção da Miriam Muniz, a superdiretora – e, nada mais nada menos que… sua prima. De quem ela herdara a escola de teatro.
Esta era a maravilhosa maluca que logo topava me dirigir - e era ela na sala da minha casa, animadíssima, puxando os cabelos e gritando:
- Nós temos que começar ontem!!!!! De hoje até o dia do show, TODOS os dias nós vamos trabalhar o Feriado Pessoal!!!!!
Foram os três árduos meses que pedi a Deus. Minha sinhazinha cantora agradecia-engrandecia.
Fiz interpretação, teatro, dança, canto, ensaio, rolei no chão, chorei, cantei três horas seguidas a mesma música, pedi água com açúcar, gritei, criei, fiz roteiro, figurino, cenário,tudo o que tive direito de tentar para encontrar aquela cantatriz que queria rodar a baiana e devorar o ao-redor.
E reformulei o que é cantar: cantar é atuar é dançar é enfeitar é sujar e é ser. O show é um filme pra gente assistir.
E a cada novo Feriado que apresento, e a cada lasca de experiência que ganho, mais ainda me alegro. Pela honra! Pelo alívio! Pelo prazer! De ser aprendiz – de cantatriz - e mais ainda, de cantartista.
ela anda com um semblante centenário – só que é só no peso, sem sabedoria.
ela é carne e unha com uma tristeza diferente, adulta – monstruosa com ela. essa é a água que alimenta pelo avesso sua verdade de menina, sua idéia de mulher. essa é a mágoa com a qual ela faz lágrimas pra usar quando quiser.
…afinal, o que ela quiser lhe é dado de bandeja: com especiaria e pompa, com bebida e sobremesa. e o que ela não pode, veja: ela se sacode e arruma. dá-se um jeito. assim, logo a gente enxerga: o que está além, o que ela não pode, está em falta bruta. basta um peteleco, basta a moça ter um treco e pronto - agora pode.
e no entanto, contrariando toda previsão mais rasa que se faça, ela é infeliz. ainda. tempo é curto, tempo é mixaria… a alegria, nele, poucas vezes cabe.poder, ela pode tudo, mas não recomenda. não agüenta na palma das mãos o peso que carrega às costas. custa muito, é cara sua incompreensão, das grossas. que é cinza. é da idade. a dor, não! – a dor, já disse: é mais velha.
esperar não é com ela! só quer ter, quer o maior. conseqüência, então – pior! ela ama o resultado – e o quer depressa. ela não segue, começa. ela é pressa e o resto não interessa.
Um instante agora pra que se esclareça: sua personalidade existe, sim! E é forte.
- frágil é sua auto-estima, flor de assoprar e sumir. - a silhueta, bem, digamos que a silhueta ela não ama, mas reclama pouco, e vai remediar para não ter que prevenir…
ela crê que nos engana.
Quanta luz ela traz e não vê, quão bonita ela é mas não faz, quanta cor ela tem mas não traz! Porque ela é: muito mais do que estamos vendo. o desejo a embaça, eis sua ameaça: ela come poeira da estrada corrida vencida perdida: a dela contra si mesma.
tocou fogo já em tantas fraquezas que causa estranheza esse temor de agora. ah, quem conhece, sabe: ela é fogo!!! é de pureza e fogo esse seu erro bobo de ir queimando etapas. ela queimou-as todas, de pouco em pouco – e enfim, ao notar que havia sido capaz, ficou assim. cada vez mais orgulhosa do salto, e cada vez maior dor a tomando de assalto! - uma falta, uma falta, uma falta ela sente, de um algo.
:é o que a alma transparece, é tudo que a gente sabe. E a alma é o quê? Só sei que a dela é magrela, é nervosa, e é bela - é flor de ninguém. aliás, é até alma-de-fome - que quanto mais come, mais fome ‘inda tem.
Enfim estamos na época que mais adoro! E pela qual espero o ano todo desde criança! Já se passaram alguns amigos secretos, inimigos secretos, festa de natal da família Caram, musicada com vovô Jamil, birinaites na cabeça, discursos, presentes e declarações de amor. E o melhor: nem acabou! Viva dezembro, e esse ano que foi muito, muito especial pra mim. É feriado, pessoal!
A paixão que continua - e eu, que disparo. Não sei aonde ir com ela. A paixão que continua, rara –que não cresce e pára, como as outras, como é de costume. Esta, cresce e sara, tece os ramos da sua trama mansa, avança. Não tem fama, só tem alma e cama: efeito. A paixão que continua no seu caminhar perfeito, semeando o tempo à frente. A paixão que é diferente, não rareia, segue: muda, aguda - e, dúvida? Não tem, nenhuma! - É mais lúcida que eu.
…Eu, que sempre amei paixões fogo-de-palha, com seus mimos e navalhas, eu que amei paixões-relâmpago e todas as suas tralhas…
E entornada vem, do nada, uma paixão que espalha paz, pois é: paixão que vem dizendo Tanto faz - que continua - nos tornando mais reais. E eu lá sei que fazer dela??? Quem a trouxe assim, sem sela, sem ciúme ou crime, sem carne ou corrente? A bandida só me espera, quente. Crente.
Quem diria!, tão mais fácil me seria desgastá-la, dispersá-la, estrupiá-la até o último centavo, esfarelá-la, devorar cada migalha! Mas… pra quê? A paixão que continua veio: e brilha - nunca quis batalha e rua: a paixão se maravilha. Não promete, não compete, não confete e serpentina – a paixão que não termina, atua; essa paixão, que é sua. Que ressoa, sua, ferve, serve, canta, se ensinua – e o que essa danada dura??? Ê, paixão que continua!, ê, duradoura! Que fazer com esta fita sem tesoura???
É a paixão que continua vindo, e agora é tão bem-vinda! A surpresa é: eu me viro!!! Giro perto dela, vejo-a linda, abro a janela, com ela respiro. Me admiro de como ela não recua. O seu nome é este: Ainda. A paixão que é boa, cura, ecoa, crua, rodopia, vê, flutua: e voa, voa, voa, nua.
Gravaçãozinha à-toa do ensaio da canção Ofício (Cantar), parceria minha com o Caê Rolfsen, que cantamos pela primeira vez ao vivo na quinta-feira passada, no show dele no Sesc Pinheiros.
O poema que originou a música está aqui num post antigo mas coloco de novo, já que, pra rodopiar na melodia, sofreu umas poucas alterações!
Ah! E as vozes da gravação são de três: minha, do Caê e da Dani Gurgel.