Grande enorme sábado à noite!!! O frio e o cansaço já haviam me recluído por um dia e meio, e por mais que a temperatura seguisse baixando desenfreada, eu precisava sair. Eu e minha ansiedade adolescente pegávamos um disco novo da caixa e abríamos a cada uma hora, namorando o trampo recém-nascido. Onde vou? Onde vou? Onde vou? Na casa do Pedro, pronto, amigo é pra essas coisas - pros dias em que quase ninguém ligou.
Fui, mas o Pedro não atendeu; deixei o disco na portaria com o típico bilhete roxo e peguei o carro de novo. Tinha combinado de encontrar um ex-namorado nesse resquício de doze de junho, mas brotou preguiça de recaídas: o que eu queria mesmo era rir à toa noite adentro!, se atar à toa pra quê? Liguei pro Vini (Calderoni, compositor).
- Tô na vila bebendo com a Bel! Vem pra cá!
Fui!
Papo vai, papo vem; vinho, ainda bem; vou pegar meu celular e…
- Gente, cadê minha bolsa???
Pois é: a bolsa sumiu. O velho golpe do opa-esbarrei-na-sua-mesa, ou o velho vacilo do vou-deixar-aqui-pendurada-rapidinho-atrás-de-mim. Carteira, celular, a bolsa linda, tudo foi-se num minuto.
- Tinha muita coisa dentro?
- Não… Ai, ainda bem que deixei a chave aqui em cima da mesa!.. E a agenda em casa! Ai… – Já choramingava -, mas por que aconteceu isso??? Que saco, não queria que tivessem me roubado…
A lágrima frouxa caiu por sobre o casaco do Vini, que se adiantou pra amparar a chorona. A Bel, maternal, já telefonava para todos os números úteis possíveis, cancelando cartões e linhas.
- Ahhh, não fica triste! Senta aqui, vai!
Vendo a teimosia da minha tristeza, tiveram uma idéia: graciosamente pegaram meu disco que gargalhava por cima da mesa, abriram o encarte e sem contar até três começaram uma serenata pra mim, cantando a curandeira Gargalhadas:
“Pra quê buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida?”..
Não dava mais pra chorar! Ri e cantei com eles. Dei os últimos goles do vinho que já não ia pagar.
- Bruninha, decidimos! Seu aniversário tá chegando, eu vou te dar uma carteira e o Vini vai te dar uma bolsa!!!
- E vamos no Poupa-tempo com você!!!
- Aliás, já sei! Vamos daqui comer um lanchão da madrugada??? A gente paga!
Santa generosidade!
- Oba! Nem posso me opôr, não tenho um tostão e não quero ir sozinha no Poupa-tempo!
Muitas batatas fritas depois, lembrei-os: meu celular já estava detonado, a bolsa rasgada por dentro, a agenda do celular já preventivamente anotada a mão, a carteira, velha, o pen drive, vazio…
- Gente, e o melhor é que tenho no bolso dez reais que peguei pra tomar quentão na quermesse!!! Na carteira tinha vinte centavos!
- Tá vendo??? Santo quentão!!!
Três da manhã, quando fui dormir zonza, meio de tanto beber, meio de tanto comer, até rezei agradecendo a noite inóspita com os manos! Não mencionei o roubo, não para resmungar de menos e saudar de mais, e sim porque simplesmente já havia me esquecido completamente do episódio traumático. Minha ansiedade adolescente só queria sossego e a lembrança das Gargalhadas!
Amigo é pra essas roubadas!
(E não pendurem suas bolsas atrás da cadeira no bar!)